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1 Setembro 2020 | Vista 1136 vezes |

EDITORIAL: O NECESSÁRIO DIÁLOGO FECUNDO E RESPONSABILIZADOR

“Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.” George Orwell

No editorial anterior, tinha chamado atenção para a necessidade de associar sempre o pensamento à ação, na linha de Cabral de “pensar para melhor agir”, a fim de dar conteúdo e sustentabilidade indispensáveis às nossas realizações. Significa não agir sem pensar primeiro, sobretudo, sem apreciar o contexto social em que se age e os agentes e atores presentes ou emergentes que o influenciam, tendo como propósito final a promoção da sua transformação e não da sua repetição. Mencionava, como a prioridade entre as prioridades, a salvaguarda da segurança sanitária das nossas populações. É óbvio que o fundamental e prioritário é manter a população com vida e com saúde. Esta evidência não mudou, mantém-se. Não teria sentido trabalhar para fazer do país um corpo moribundo.

Na tentativa de vislumbrar os caminhos de saída para os desafios atuais, desejo partilhar convosco algumas perguntas e dúvidas que me têm atormentado. Afinal, que tempo é este? O que representa? O que exige de nós? O que pede a cada um? Quais as renúncias e os sacrifícios pessoais que nos exige? Quais as atitudes a privilegiar nas relações com a sociedade, a fim de convencer as pessoas a acreditar e a prosseguir voluntariamente os esforços, os sacrifícios e as renúncias pessoais que lhes são impostos? Quais as prioridades a fixar?

Outrossim, a situação atual, pela sua complexidade e delicadeza, reclama de todas as lideranças (de todas!), a sinceridade e a verdade; requer o diálogo responsabilizador e de partilha de responsabilidades, em vez de propagandas inconsistentes, de fugas para frente e de ofensas desnecessárias, que dificultam e desvirtuam o conhecimento da realidade e impedem o diálogo franco, útil e fecundo de que o país espera e necessita, como pão para a boca. O diálogo sincero e leal é a condição prévia indispensável para garantir a cooperação e a solidariedade imprescindíveis em tempo de crise.

Caminhamos num terreno muito escorregadio. Tem havido uma complexificação do contexto sanitário, político, social e económico. O número de infectados pelo vírus não pára de crescer. Mantêm-se as ameaças de sufoco às estruturas sanitárias e as probabilidades do cansaço psicológico da sociedade. O regresso à tão desejada normalidade distancia-se. É uma realidade preocupante. Não vale a pena escamoteá-la. Pelo contrário, é imperioso encará-la de frente com coragem, com lucidez e com espírito inovador e construtivo e pensar em saídas criativas e soluções viáveis e sustentáveis.

Para nossa desventura, vieram juntar-se ao contexto sociopolítico complexo dois fatores novos de complicação e de perturbação: o caso Alex Saad e as eleições autárquicas, sem falar na azágua que se está a trabalhar. Se é certo que as novas complicações trazidas aumentam as dificuldades, também, é certo que requerem ser geridas e resolvidas com espírito crítico e responsavelmente, sem cair no erro de subalternização do esforço e do empenho continuados na proteção e defesa da saúde pública. Por maiores que sejam as dificuldades recorrentes, é imprescindível não se desviar do objetivo principal e manter o tratamento e o combate à epidemia como a primeira entre as prioridades, pois, qualquer descuido pode conduzir à perda do controlo da situação com consequências imprevisíveis.

O normal é que todos estejamos altamente preocupados com o nosso futuro imediato e, por isso, estejamos igualmente vigilantes quanto às medidas que têm sido tomadas no combate à pandemia. Não se pode pedir a quem quer que seja para deixar de pensar na evolução da pandemia que tem comportado, até agora, uma ameaça permanente para o futuro da nossa Nação. As nossas preocupações e angústias impelem-nos a uma atitude altamente crítica e fazem com que os desvios sejam de imediato notados. É visível que tem havido a tentação de misturar as coisas, de aproveitamento político de medidas sanitárias ordinárias e de secundarização do essencial do combate à pandemia. Ao contrário, espera-se um tratamento leal, respeitoso e sincero em relação a todos. Verifica-se uma multiplicação atribulada de atividades com a participação de dezenas de pessoas, aumentando o risco de transporte do vírus para localidades onde estava ausente. As obrigações de prevenção e as restrições são para todos, incluindo os dirigentes e responsáveis do país. Ninguém deve sentir-se dispensado do cumprimento deste dever, porque não podemos exigir aos outros sem cumprir com a parte das obrigações que nos incumbe. Simultaneamente, estamos preocupados com a imprudência e os comportamentos irresponsáveis.

Quais seriam, hoje, as principais expectativas das pessoas? A resposta é simples e direta. As pessoas esperam mais segurança e dados seguros da redução sustentável do número de contaminações diárias. Querem mais saúde e mais segurança sanitária! Querem dispor de condições suficientes para a reorganização da sua vida, que ficou amputada e desconjuntada. Incumbe às lideranças políticas, económicas, administrativas e sociais entender esta verdade transparente que interpela a todos e pede uma ação em concordância.

Vivemos um tempo altamente exigente para todos os atores políticos e sociais e para toda a sociedade. Porém, é mais exigente para os detentores do poder e portadores do compromisso de bem administrar o nosso país, nos diversos níveis de responsabilidade.

É exigente dos pontos de vista intelectual e moral. Requer dos líderes maturidade, sabedoria, humildade pessoal, generosidade e abertura de espírito. Pois, impõe-se vencer as barreiras do desconhecimento recíproco, da intolerância e da desconfiança sistemática. Neste momento complexo, todos somos necessários. Ninguém é possuidor exclusivo da verdade e da responsabilidade política e social. Partilhamos o conhecimento e a verdade e estamos convocados a partilhar responsavelmente os desafios do futuro comum. É desta premissa ética sensata que devemos organizar o nosso pensamento e a nossa ação. Do ponto de vista ético, exclui o recurso à demagogia e ao oportunismo. Apela à deontologia da verdade, da lealdade e da sinceridade. Propõe o diálogo cooperativo e útil em vez da troca de propaganda e de contrapropaganda.

Face ao cansaço provocado pelas enormes pressões dos acontecimentos e das necessidades insatisfeitas e, ainda, pelas ansiedades e pelos desassossegos provocados pelas exigências das funções e dos projetos políticos de uns e de outros, julgo que se impõe encontrar um tempo, uma pausa, para repensar os acontecimentos e refletir sobre o diálogo nacional útil que se impõe neste momento sociopolítico complexo e extremamente exigente.

Pedro Pires - Praia, Setembro de 2020

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