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18 Dezembro 2020 | Vista 1293 vezes |

EDITORIAL: NU TEM KI PODÊ ...

A situação em que nos encontramos requer um pequeno balanço retrospectivo da evolução da pandemia. De dois pequenos núcleos iniciais de 3+1, na Boavista e na Praia, estamos atualmente perante o número acumulado de mais de dez mil infectados e de mais de uma centena de mortes. Com alguma diferenciação no início, agora o vírus está espalhado por todas as ilhas. Destes dados podemos avaliar o alto grau de agressividade do vírus e a sua grande capacidade e velocidade de expansão, assim como, os riscos gravosos que acarreta para o futuro da nossa sociedade.

Urge identificar e corrigir as disfunções do sistema. Por outro lado, creio que a grande falha poderá ter estado no facto de as pessoas, individualmente, não terem dado importância às características fortes da covid19: agressividade e alta capacidade de expansão. Talvez pensassem, ingénua e astuciosamente, que seria possível fintar e ignorar a presença do vírus, ou poderão haver outras razões de ordem material e social que não estejamos a conseguir descobrir. Poderão ser debilidades económicas e socioculturais que precisam de ser equacionadas e tidas em conta.

Pelos vistos, o sucesso desta tarefa administrativa e, igualmente, pedagógica requer muita paciência e persistência dos seus atores. Além disto, o prosseguimento e o sucesso deste combate complexo e coletivo impõe o exercício da responsabilidade partilhada entre os poderes públicos, as comunidades e os cidadãos. Estas responsabilidades devem ser assumidas, partilhadas e exercidas, concomitantemente. Podia até dizer que os três protagonistas são insubstituíveis e inseparáveis. A ausência ou a deficiência de uma das partes dificultaria e anularia os efeitos positivos da contribuição e do trabalho das outras duas partes.

Quando estamos diante da necessidade de priorizar a proteção do interesse de todos, a saúde de todos nós, não enxergo quais as razões sérias de fuga, para não dizer recusa, ao cumprimento de normas de prevenção e de controlo dos contágios, porquanto estão em causa os interesses superiores de todos nós. Por outro lado, as autoridades públicas não devem ser encaradas como os depositários exclusivos dos interesses nacionais e públicos, quando nós, os cidadãos, é que devemos ser os principais destinatários e defensores dos interesses próprios e dos deveres pessoais e coletivos. Pois, trata-se do exercício prático da tão falada e desejada cidadania, que é intransferível a terceiros porque, senão, conduziria à desfiguração da condição de sujeitos sociais atuantes e responsáveis que estamos chamados a ser.

Nestas circunstâncias, somos solicitados a libertar-nos de velhos hábitos arraigados do individualismo egoísta, da desresponsabilização e da tendência de considerar os poderes públicos como nossos adversários ou, do contrário, de que são os responsáveis primários pelo nosso futuro e bem-estar, pela solução dos riscos que nos ameaçam e pelo cumprimento dos deveres pessoais que nos incumbem. Por sua vez, as autoridades públicas não devem usurpar as responsabilidades dos cidadãos nem considerá-los como sujeitos menores, sem projetos pessoais e sem responsabilidades próprias, que estariam à espreita de favores e de prebendas dos poderes públicos como compensações de opções políticas ou eleitorais.

Creio ser este um tempo diferente que não se conforma com os métodos políticos ou comportamentais do passado recente e que reclama por mudanças nos modos de estar na vida e nas atitudes pessoais ou públicas. O certo é que o futuro próximo não vai trazer-nos facilidades. Além disso, a complexidade e as incertezas impostas pela pandemia com que nos confrontamos pedem outras posturas e reclamam a corresponsabilização na gestão das conjunturas sanitária e económico-financeira nacional e, igualmente, a partilha das decisões cruciais. Significa encontrar, sem pôr em causa a legitimidade política institucional, uma forma inovadora de partilha de responsabilidades e de formação de decisões, incluindo a partilha de eventuais vantagens advenientes. Em linguagem económica, seria a mutuação dos ganhos e das perdas. Politicamente, seria o preço político da ultrapassagem da pandemia com menos custos materiais e sociais para a nossa sociedade e constituiria algo como um compromisso nacional para a saída desta crise exasperante.

Enfrenta-se, por todo o lado, o dilema que opõe o confinamento ao desconfinamento da população. O certo é que a vida não deve excluir a economia nem a economia deve excluir a vida. Será conciliando, num espírito criativo, estes dois critérios pragmáticos que a melhor solução pode e deve ser encontrada. Apesar de amparados na esperança da vacina que vai chegar, primeiramente, vamos ter que ser capazes de fazer isto…

Porquanto, os desafios não vão parar com a chegada das vacinas providenciais. Vai ser necessário muito trabalho para se assegurar um futuro saudável e melhor para todos.

Pedro Pires - Praia, Dezembro de 2020

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