ENTRE O SILÊNCIO TRANQUILIZANTE E A REALIDADE INTERPELADORA
Creio não estar a exagerar se considerar a situação por que o mundo está a passar e o nosso pequeno país, também, crítica, conturbada, escorregadiça e de muitas incertezas. Com efeito, são tempos inéditos, diferentes daqueles com os quais temos convivido, mais ou menos bem, ou que já ultrapassámos, tempos que reclamam uma atitude madura e sábia para os enfrentar com probabilidades de êxito, o que, por sua vez, nos recomenda refletir e refletir bastante antes de decidir.
A escolha de objetivos a realizar e de caminhos a seguir para os alcançar constituem elementos cruciais, constitutivos da tomada de decisão e da probabilidade de obtenção dos resultados almejados. A programação e a escolha de prioridades constituem outro exercício sensível de gestão, que reclama realismo e inteligência estratégica, pois não se pode baralhar o roteiro nem errar nas sequências de concretização.
Por seu lado, os caminhos fáceis e as soluções ligeiras e descuidadas, a fim de agradar expetativas irrealistas ou de mobilizar apoios efémeros, contribuem para desresponsabilizar as pessoas e as comunidades, afastando-as da situação objetiva e de soluções sólidas e duradouras. As facilidades não representam escolhas acertadas, especialmente, quando a resposta adequada seria conceber e concretizar soluções viáveis, sólidas e duradouras.
Temos passado por momentos críticos que vêm reclamando dos cidadãos e das lideranças ponderação e maturidade que ajudem a encontrar escolhas e soluções realistas e viáveis em bases sólidas, a fim de se colocar o nosso país a salvo de desenvolvimentos posteriores imprevisíveis e comprometedores de ganhos arduamente conseguidos, pondo os interesses nacionais acima de quaisquer outros.
Neste embate por uma verdadeira salvação nacional, antes de qualquer outro elemento de ordem material ou materialista, deve-se destacar, valorizar e estimular a força anímica que nos tem inspirado: o amor a Cabo Verde. Com efeito, a mola simbólica e emocional que nos tem impulsionado tem sido o patriotismo. Sem ele, tudo seria mais complicado e nos perderíamos em meandros intricados da gestão de compensações a interesses individuais, de grupos ou de terceiros.
Não resta dúvida a ninguém que o nosso país está perante uma conjuntura crítica, desafiante e complexa. A sinceridade obriga-nos a reiterar que nos encontramos perante uma crise multiforme de desdobramentos vários: sanitário, económico, financeiro, social e humanitário. Por todo o lado, a preocupação primeira tem sido, e continua sendo, a erradicação da Covid19, agora, previsível com uma ampla campanha de vacinação. A segunda grande prioridade é enfrentar e superar com sucesso a conjuntura “pós-covid-19”. Isto é, reunir as condições e os recursos humanos, materiais e financeiros para relançar a economia, saldar as dívidas públicas e privadas, reequilibrar as finanças públicas e as contas dos bancos e, por fim, restaurar os graves e vastos danos económicos e sociais que vão restar por resolver.
As crises são situações de anormalidade e carregadas de riscos. Requerem, por isso, uma gestão política sábia. Neste sentido, nenhuma liderança avisada deve arrogar-se da veleidade de querer resolver sozinha, e no conforto dos gabinetes, a complexidade da situação e dos desafios por vencer, desconsiderando as contribuições indispensáveis de outros atores políticos, económicos, sociais, culturais e religiosos. Pelo contrário, os tempos de crises reclamam responsabilidades partilhadas, união, solidariedade e cooperação. Pois, unidos, solidários e cooperativos seremos mais capazes e, certamente, estaremos em melhores condições de vencer os desafios que nos são impostos! Por esta e por outras razões, considero que há, no nosso país, a necessidade urgente do fomento de um ambiente político de diálogo, de confiança recíproca, de cooperação e aberto ao compromisso, a fim de se garantir nos próximos tempos a estabilidade política e social, a harmonia nacional e a segurança pública indispensáveis.
Outrossim, estamos em tempo de escolhas políticas, em que caberá a responsabilidade maior aos eleitores que vão decidir. O mais certo é que a situação pós-covid19 exija uma gestão muito criteriosa, ponderada e rigorosa e, certamente, austeridade no uso e distribuição dos recursos públicos.
A recuperação económica, financeira e social, a seguir, que alguns já chamam de reconstrução nacional, terá que ser sempre uma obra de dimensão nacional, complexa e de longo prazo, compartilhada e sustentada em projetos e programas sólidos e em sectores modernos portadores de novas oportunidades económicas e geradores de mais rendimentos e empregos, a fim de se compensar os destruídos. O sector social exigirá uma atenção muito especial.
Vários analistas e futurólogos têm defendido que o pós-covid19 não será jamais uma réplica do pré-covid19 e que a nova normalidade será diferente da normalidade antecedente. Acredito que sim, particularmente, na forma de fazer política, exigindo mais diálogo, compromissos firmes e maior partilha de responsabilidades. Ouso pensar numa ideia incomum que é uma nova democracia, participativa e cooperativa.
Neste percurso nacional desafiante, há um lado ético e simbólico a não se descuidar: a necessidade de se manter um clima de confiança no seio da sociedade cabo-verdiana. É fundamental que as instituições do Estado preservem a sua credibilidade e confiança junto da sociedade e dos cidadãos. E, igualmente, que gozem e continuem a gozar do respeito e da confiança dos nossos parceiros africanos e internacionais. Do meu ponto de vista, a nossa reputação política tem sido de índole referencial (a exemplaridade), o que significa que é de natureza ética, portanto, variável. Aos servidores públicos, em todos os sectores da Administração e em todas as Instituições do Estado, cabe a imensa tarefa de manter e reforçar esta exemplaridade e velar pelo prestígio, pela credibilidade, pela eficiência e pelo respeito ao nosso Estado de Direito Democrático. Na mesma linha de pensamento, cabe aos atores políticos a árdua tarefa ética de elevar e prestigiar a política e a função política.
Por fim, Cabo Verde e os cabo-verdianos não devem assumir-se, apenas, como um “mais um” à espera; devem ter iniciativa própria e ambicionar, com trabalho árduo, ser diferentes, sempre para melhor!
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