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1 Julho 2021 | Vista 2251 vezes |

EDITORIAL: COMO FOI POSSÍVEL?

Estas recordações reflexivas são elaboradas na intenção de encontrar resposta a questionamentos que me têm assediado, ultimamente: como foi possível a concretização da nossa gesta épica da conquista da independência?

A nossa independência é fruto, sem preço e sem gratificações, do compromisso cumprido de uma geração de sonhadores com a conquista da soberania nacional e com a libertação política e social do povo das nossas ilhas.

A materialização desta epopeia patriótica foi possibilitada pela sua essência idealista, inspiradora e atrativa e pela convicção e entrega generosa dos seus protagonistas, embora minoritários e, porventura, incompreendidos no início daquela proeza. A sua gestação, surgimento e construção decorreram da atitude de rebeldia, da rejeição da humilhação e do descaso e, sobretudo, de recusa da resignação e do comodismo egoísta, do medo e da irresponsabilidade histórica. Para tal, houve quem abandonasse, espontânea e corajosamente, os confortos ilusórios oferecidos enquanto sedução das elites coloniais.

Partiu-se de uma situação precária e insegura de enorme desvantagem geográfica, política, militar e económico-financeira, em favor do poder colonial. O triunfo da nossa causa deveu-se muito à perspicácia política e à inteligência estratégica do seu líder Amílcar Cabral. Pois, para enfrentar e vencer o colonialismo foi determinante a aliança política, social e militar simbolizada pelo PAIGC, sob o lema integrador “Unidade e Luta”. Não fosse esta estratégia inovadora, dificilmente seríamos o que somos hoje: Estado soberano responsável pelo seu destino e escolhas. Tendo sido um ato de vontade e de engajamento pessoal, a coerência ética do compromisso do Combatente da Liberdade com a Nação foi um elemento inspirador de enorme relevância, que permitiu suportar os sacrifícios e vencer todos os obstáculos que se erguiam no caminho daquela marcha emancipadora.

Do meu lado, o compromisso sincero e constante com o destino que voluntariamente escolhi, mau grado os momentos críticos da caminhada espinhosa dele decorrente, em que passei por situações de grande tensão, foi o fator decisivo para atingir os objetivos ambiciosos pessoais e coletivos almejados.

Na vida, não existem escolhas grátis nem sucessos antecipados. As escolhas implicam sempre renúncias e impõem servidões e custos. Do meu lado, cultivei a coerência ética e a lealdade com as minhas escolhas pessoais e encarei naturalmente os riscos delas decorrentes, quando, o sucesso não estava previamente garantido, havia que correr atrás dele.

Foi em finais de 1961, que houve a maior mudança na minha vida pessoal, quando optei pela carreira de “revolucionário profissional” ao serviço exclusivo da luta de libertação nacional consubstanciada pelo PAIGC, em que houve ruptura com o passado de mero simpatizante com a nossa causa emancipadora.

Nesse percurso, perpassado por desafios, armadilhas e obstáculos, realizei missões, enfrentei desafios, passei por riscos e resisti aos sustos com que me deparei. Entre as missões mais complicadas que realizei vou salientar algumas. Porém, as vitórias são construídas no quotidiano, em incontáveis pequenas ações maçadoras e repetitivas, autênticos desafios à paciência e à perseverança, somando pequenos avanços, realizações e ganhos.

A missão de mobilização de combatentes em França, num terreno minado, onde o inimigo estava mais à vontade e gozava da cumplicidade e colaboração das autoridades, sem eu ter dado conta, teria sido uma das mais arriscadas e complexas, pelo seu alto grau de clandestinidade e de riscos. Coloco, a seguir, a missão de liderança da formação em Cuba de um grupo heterogéneo de combatentes cabo-verdianos, pelo que exigiu de subtileza política e significou de renúncias, de sacrifícios psicológicos, de isolamento e do seu grau de clandestinidade. São a prova do quanto pode conseguir a vontade humana associada à convicção em prol de uma causa política emancipadora e dignificante.

Contudo, a missão mais exigente e mais trabalhosa e responsabilizadora foi a minha, a nossa, integração plena nas estruturas político-militares do PAIGC no território da Guiné-Bissau, em que terminei a missão na Frente Sul com base permanente em Kandiafara.

A transferência do meu habitat habitual para a vida no mato da Guiné, transportava consigo os riscos de inadaptação e a probabilidade de geração do sentimento de solidão. Era um outro ambiente físico e climático, outras culturas, outras religiões e outros hábitos, que era preciso entender e com os quais era indispensável conviver harmoniosamente. O calor, a humidade, o paludismo e os mosquitos eram os “inimigos” a suportar, aos quais se deve juntar a precariedade de recursos e a insegurança, que impunham por sua vez a sobriedade, a austeridade, a estoicidade e a modéstia. Foi uma verdadeira metamorfose comportamental e cultural. Era ainda necessário submeter-se a uma espécie de endurecimento mental, contudo, sem se deixar desumanizar.

Passei por vários momentos críticos de susto e do medo do pior. O primeiro susto teria sido quando alguns dirigentes do PAIGC, incluindo Aristides Pereira, foram encarcerados em Conacri. Outro susto horrível aconteceu quando o meu camião pisou uma mina anticarro, à noite, na estrada entre Sansalé e Kandiafara, em que sofremos um morto e dois feridos. Outro susto temerário aconteceu quando Amílcar Cabral foi preso pela Polícia de Fronteira no Aeroporto de Orly, em Paris. Fiquei desamparado naquele aeroporto e temi o rapto de Amílcar Cabral. De novo, conseguimos vencer aquele imbróglio complicado. Entretanto, sobreveio mais um momento de susto e de alto risco que foi o assalto à capital guineense pela Marinha Portuguesa e o ataque às instalações do PAIGC naquela cidade. Porém, o pior dos sustos foi o assassinato de Amílcar Cabral, em que vi o fim próximo da nossa Luta e do nosso Partido Combatente. De novo, superamos os grandes desafios colocados. O fator fundamental para que assim acontecesse foram a nossa fidelidade e lealdade aos compromissos assumidos com o destino dos nossos Povos. Entretanto, 1972 tinha sido um ano muito fecundo e promissor, preparatório de vitórias político- militares do ano seguinte.

Às tristezas e aos desesperos seguem-se geralmente momentos de alegria e de júbilo. As maiores de todas as minhas alegrias foram a chegada dos mísseis antiaéreos Strella-2 e a conquista do quartel estratégico de Guiledje, os prenúncios do fim do império colonial português em África. Na sua sequência, tiveram lugar acontecimentos de alcance histórico: o II Congresso do PAIGC, a Proclamação do Estado soberano da Guiné-Bissau, o derrube do regime colonial e fascista e a abertura das negociações com o novo Poder em Portugal.

Fui indigitado para liderar a equipa do PAIGC para as negociações e representá-lo na cerimónia de reconhecimento da República da Guiné-Bissau pelo Estado Português. Concluídas essas duas missões, tinha chegado a hora de despedida da frente de luta na Guiné e de regresso a Cabo Verde, a fim de assumir a liderança do PAIGC e de honrar o compromisso que me tem ligado ao meu País.

Regressei dezoito anos depois da minha partida. Foi emocionante e desafiador. Encontrei um país diferente e eu era já um líder político temperado pela luta do PAIGC. Ia entrar numa luta de natureza diferente, cujos meandros devia apreender rapidamente a fim de acelerar o seu triunfo. A minha principal missão era contribuir para a conclusão vitoriosa do processo da independência nacional. Enfim, era contribuir para a conclusão vitoriosa do processo emancipador em curso.

O ambiente sociopolítico era instável e turbulento, em que se registavam mudanças rápidas e uma disputa política altamente agressiva. Os patriotas anticolonialistas estavam preocupados e impacientes. As atitudes dúbias do poder em Portugal e as desconfianças do PAIGC quanto às suas verdadeiras intenções levaram a que se chegasse a uma situação de bloqueio político. O país ficara desgovernado.

Era urgente encontrar-se, sem violência, uma saída política. Fizemo-lo oferecendo a nossa colaboração ao Governo português. Em resposta, fomos convidados a negociar. Das negociações, assinamos um Acordo a 19 de Dezembro de 1974. Dele, ficou estabelecido um período de transição com liderança partilhada e a proclamação da independência em Julho, por uma Assembleia eleita. O calendário fixado foi cumprido: as eleições realizaram-se a 30 de Junho, a Assembleia Nacional Popular foi institucionalizada e constituídos os órgãos do poder e eleitos os respectivos titulares. A República de Cabo Verde foi proclamada a 5 de julho de 1975.

Coube-me a missão ingrata e espinhosa de Primeiro-Ministro, para conduzir o País rumo à consolidação das conquistas políticas conseguidas e da construção das bases políticas e socioeconómicas do seu desenvolvimento. Mas que país e que sociedade ia conduzir?

Era um país pequeno, pobre e descrente, de cofres vazios e sujeito a uma crise múltipla muito severa: política, social, alimentar, económica, financeira, ecológica, hídrica e psicológica. Era crucial reverter aquela situação catastrófica, viabilizada pela aplicação de políticas progressistas de inclusão, de participação e responsabilização social.

De novo a mesma interpelação: como foi possível?

Foi possível porque conduzia a governação nacional uma liderança patriótica, progressista, solidária com o Povo, comprometida com o interesse público, inspirada no “amor a Cabo Verde” e preocupada exclusivamente com os interesses nacionais. Talvez, seja esta a resposta!

Pedro Pires - Praia, Junho de 2020

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