EDITORIAL: POR UM MUNDO MELHOR E MAIS JUSTO!
Para pensar como melhorar as coisas, visando um futuro mais seguro e justo para todos, vale a pena observar como vai atualmente este nosso mundo. Temos um mundo dividido e extremamente desequilibrado e desigual em matéria de poder e de riqueza. As desigualdades aprofundam-se sistematicamente e não há sinais de qualquer propensão de inversão nesta tendência perversa tipicamente darwinista, da luta pela existência e do triunfo do mais forte. O egoísmo nacional e os interesses individuais de curto prazo vêm fazendo lei, preterindo os objetivos de interesse comum, duradouros e de longo prazo.
Com efeito, num universo de cerca de oito biliões de habitantes, temos uma sociedade mundial em que 1% dos mais ricos, 80 milhões de pessoas, detém a metade da riqueza mundial, enquanto a outra metade é distribuída aleatoriamente entre os 99% restantes, ou seja entre os sete bilhões novecentos e vinte milhões de habitantes que restam. É mais do que óbvio que este mundo atual, além de injusto, é eticamente inaceitável. Nesta altura, corre-se o risco de uma nova fratura, e mais grave, no seio da comunidade mundial: de um lado estarão aqueles que terão acesso à saúde plena e às três doses da vacina anti-covid-19 e, de outro lado, estará uma maioria indiscriminada que teria dificuldade em ter acesso a uma única dose da vacinação. Seria uma outra ruptura social intolerável!
Se isso acontecesse representaria um retrocesso civilizacional significativo, em que cairiam por terra os valores da igualdade, da solidariedade, da segurança humana e dos direitos humanos para todos os habitantes do nosso planeta, consagrados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela ONU, em 1948. Face a esta ameaça temerária, impõe-se um sobressalto ético e solidário no seio das sociedades ricas, em particular, que se têm comportado de forma altamente egoísta e têm vindo a exaurir a sua consciência da unicidade da Humanidade e dos vínculos e valores éticos que têm vindo a pontuar e unificar o destino universal da Humanidade moderna. Nessas circunstâncias, o princípio universal da dignidade humana para todos também estaria seriamente ameaçado!
O que veio evidenciar a covid-19?
A covid-19 vem evidenciando as fragilidades e as limitações das grandes agências mundiais, como a ONU e a OMS, perante uma pandemia agressiva e expansiva e de uma sociedade mundial indiferente, fragmentada e exclusiva, que ignora os interesses dos mais fracos e mais pobres.
Em África, provaram-se a despreparação e as limitações e fragilidades das instituições sanitárias e tecnológicas dos Estados, em matéria de políticas de saúde pública. O mais grave é a revelação de uma dependência, quase absoluta, da boa vontade das grandes “farmacêuticas”, das instituições internacionais e dos Estados estrangeiros, perdendo desta forma a viabilidade de qualquer ambição de se dispor da soberania nacional nesta matéria.
Porém, houve uma inquietação geral no seio da classe política e há alguns sinais animadores: as lideranças do Egito, da África do Sul, do Senegal, de Marrocos, da Tunísia, da Argélia e do Gana deram passos importantes no sentido da promoção da instalação de unidades industriais de produção de vacinas anti-covid 19 nos respetivos países. Contudo, fica-me a sensação de que carecem de uma visão integradora continental e de coordenação operacional entre as diversas iniciativas, muito louváveis.
Do lado positivo, estou em crer que se despontou, com esta crise, uma nova oportunidade de desenvolvimento de uma cooperação eficiente e da transferência de tecnologias entre as instituições privadas e públicas estrangeiras e as suas congéneres africanas, em cujo âmbito é recomendável incluir a mobilização das inúmeras competências da Diáspora africana.
Antevejo o surgimento, do bojo desta crise profunda, da oportunidade de se negociar uma cooperação multilateral neutra e inclusiva, ao serviço dos nossos Povos africanos, que abranja indistintamente a Europa, os EUA, a China, a Federação Russa, a União Indiana e Cuba. Considero ainda aconselhável a inclusão neste pacote da produção de vacinas contra a malária, o ébola e outras enfermidades tropicais endémicas, que ainda afligem as populações africanas. Finalmente, encaramos este esforço extra de antecipação do progresso social numa perspetiva do prosseguimento do combate longo e árduo pela libertação plena dos Povos Africanos!
Pedro Pires, Patrono do IPP - Outubro de 2021
Artigos recentes
» SOLIDARIEDADE COM A ILHA DO FOGO» EDITORIAL: “O SUCESSO DE UMA JORNADA QUE NOS INTERPELA”
» ROSAS NO CAMINHO: O QUE A CHINA DE HOJE NOS ENSINA – E OS DESAFIOS QUE NOS COLOCA
» A ÁFRICA E O FIM DAS CERTEZAS MULTILATERAIS
» AMÉLIA ARAÚJO: A VOZ QUE NÃO SE APAGOU
» EDITORIAL: “A ENORME FELICIDADE DE PENSAR"
» EDITORIAL: “PELA LUCIDEZ REFLEXIVA E PELA INTELIGÊNCIA POLÍTICA"
» EDITORIAL: “VIVA A REPÚBLICA DE CABO VERDE"
» A PERDA QUE NOS INTERPELA
» EDITORIAL: “50 ANOS, 50% DE IGUALDADE POR CONQUISTAR!"
» EDITORIAL: “DILEMAS E ESPERANÇAS PARA 2025"
» PEDRO PIRES E AMÍLCAR CABRAL: COMPANHEIRISMO, FRATERNIDADE E PROXIMIDADE*
» LIDERANÇA NO MOVIMENTO SINDICAL CABO-VERDIANO
» EDITORIAL: "PELA LUCIDEZ E PELA VERDADE!"
» PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA LUTA PELA INDEPENDÊNCIA DE MOÇAMBIQUE
