(RE)INVENTAR A NORMALIDADE
A Covid-19 desestabilizou nossas vidas, nossas rotinas e nossos padrões de interação social.
Felizmente, as vacinas apareceram para nos devolver a esperança de alguma normalidade futura. Neste sentido, a taxa nacional de vacinação merece ser saudada, não obstante variações sociais e locais susceptíveis de fazerem perigar os ganhos conseguidos. A esse respeito, temos assistido a deslocações expressas e pedidos reiterados de oficiais e activistas com o propósito de promover a vacinação em comunidades e regiões, por sinal pobres e excluídas, e com taxa de inoculação abaixo da média nacional. O efeito dessas deslocações e pedidos a favor da vacinação tem sido mitigado ou, pelo menos, tem ficado aquém das expectativas. A quase ausência de tentativa consistente e prévia de compreensão da resistência, indiferença ou descaso das populações explica, em parte, os resultados obtidos. Sendo os apelos, muitas vezes, inevitáveis, a sua mera reiteração comporta limites em termos de eficácia. As razões de uns não são forçosamente as razões de outros tantos. Julgo que nesses casos, a mudança de atitudes reclama, entre outras estratégias, informação e comunicação focalizadas e talhadas para o público-alvo e, certamente, educação, cujo défice determina, em parte, algumas formas de resistência. Ouvi explicações expeditas (ou serão justificativas?) que parecem deixar alguns responsáveis locais de consciência tranquila e que todavia não apontam caminhos. A geografia e os contornos sociais do descaso em relação à vacina contra a Covid-19 não são novidade embora tenham, atualmente, fortes ramificações suburbanas resultantes do êxodo rural. Os actores parecem ter-se esquecido que o mesmo fenómeno tinha ocorrido em relação a campanhas anteriores de vacinação - sarampo, poliomielite, etc…. ou prevenção da cólera. Ninguém parece questionar a condição histórica e social que produz a indiferença e, sobretudo, a eficácia de campanhas de informação uniformes, de discursos, de soluções e de montagens organizacionais convencionais neste pequeno e diverso Cabo Verde. Por regra deixam sempre de fora os que já estavam excluídos.
Questionar os métodos, abordagens e seu ajustamento ao perfil do público-alvo parece não fazer parte do cardápio gerencial. Peço-vos que me entendam. Não quero dizer que as autoridades sanitárias e os oficiais sejam culpados. Esse debate deve ser feito para além ou aquém da lógica da culpa. Tão pouco quero isentar as populações de suas responsabilidades ou vitimizá-las. O que quero dizer é que face a resultados indesejados é nossa obrigação questionar, sem complacência, a nossa intervenção (objetivos, estratégias, metodologias, adequação da abordagem à diversidade de perfis socioculturais…). Nada acontece por acaso ou por falta de sorte. As justificações subjetivistas, ainda que enraizadas, não explicam nada! Duvidar metodicamente constitui um momento seminal de qualquer iniciativa ou tentativa de procura de melhores resultados. O pior é que a não obtenção de resultados almejados tende a facilitar a emergência de um estado de espírito desmobilizador e paralisante, em que muitos actores resumem da seguinte forma: a população não colabora! Em certos casos, a mecânica sociopolítica, institucional e psicológica decorrente conduz, inexoravelmente, ao reforço da exclusão.
Faço esta reflexão para lembrar um tema transversal e omnipresente em todos os cursos do IPP, crítico para todas as organizações e que interpela as lideranças do topo à base: gestão de mudanças. Efectivamente, a Covid-19 impôs-nos mudanças nas nossas práticas ao mesmo tempo que nos ofereceu e oferece, ainda, oportunidades de mudanças positivas. Ouvi discursos de mudança, inclusive por parte de entidades que vêm recomendando ou implorando ao público para evitar aglomerações. Todavia, não pude observar, em certos casos, mudanças nos seus modelos e práticas de funcionamento e de atendimento do público. Simplesmente, transferiram a aglomeração de pessoas de exíguas salas de espera para a rua ou passeios adjacentes. No contexto da pandemia, a mudança tem que significar, igualmente, segurança sanitária e comodidades acrescidas para os utentes e clientes.
Infelizmente, a mudança no desempenho das organizações não pode ser decretada por mais necessária e imperiosa que possa ser. Trata-se de uma construção gerencial que requer, no mínimo, tomada de consciência e aceitação inequívoca dos problemas, análise da situação, negociação/fixação de objectivos de mudança, programação, informação e capacitação de agentes, testagem, antecipação de riscos, execução e, naturalmente, liderança comprometida e focada. Como ninguém acerta, em tudo, à primeira, sublinho a importância de mecanismos de seguimento e avaliação que nos permitem corrigir desvios e efeitos indesejados. No momento em que precisamos cada vez mais de tecnologia, conviria relembrar que sua utilização não garante, de per si, a mudança desejada ou se quisermos a inovação! Há momentos em que não consigo evitar de pensar que as TIC, em certos casos, estão ao serviço da complexificação, da burocratização e de dificuldades acrescidas para o utente/cliente.
Queria, ainda, sublinhar a importância crucial da autoavaliação das nossas práticas pessoais, profissionais e institucionais. A consciência de que estamos a dar o nosso máximo – não há profissional, burocrata ou dirigente político que não tenha esse sentimento! - não significa que estejamos a fazer da melhor forma, com a eficácia e o impacto esperados. A atividade, ainda que intensa, não é sinónimo de produtividade e muito menos de eficácia. Façam esta autoavaliação porque a rotina pesada de muitas organizações, sejam elas públicas, privadas ou não-governamentais, tem a condão de erodir o discernimento, o conhecimento e competências e anular a nossa vontade.
Que 2022 seja o ano do fim da pandemia e de retorno, ou melhor de (re)invenção da normalidade! Efectivamente, a nossa nostalgia da situação pré-pandémica não deve fazer-nos esquecer que, antes, também não era a normalidade sonhada ou vivida por muita gente, em Cabo Verde e no mundo. Que sejamos capazes de (re)criar uma normalidade pós-pandémica mais humana, mais justa, mais solidária, mais pacífica, mais tolerante, mais convivial, mais amiga do ambiente e da qualidade de vida dos cidadãos e mais propícia ao desenvolvimento das potencialidades de todos. A variante Omicron surgiu para turvar o céu de esperanças que começávamos a divisar mas certamente que a Ciência e a nossa colaboração e disciplina permitirão, mais cedo ou mais tarde, o retorno/recriação de alguma normalidade. Para isso, Cabo Verde precisa e precisará de capacidades humanas para conceber, executar, seguir e avaliar mudanças e corrigir as falhas e efeitos indesejados que fazem parte do processo.
Victor Borges, Coordenador das Formações de Liderança do IPP
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