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23 Março 2022 | Vista 1105 vezes |

EDITORIAL: NU DJUNTA MON!

Na “escuridão” somos obrigados a apalpar o caminho com os pés. É uma experiência da minha adolescência que me lembrei, agora, ao pensar na situação extremamente complicada por que o nosso mundo comum está a passar e o nosso país, igualmente. Tínhamos saído de Cascabulho para ir a Santana, duas localidades na ilha do Fogo. Uma noite escura apanhou-nos a meio da viagem, quando já não dispúnhamos do facho para iluminar o caminho. Nem tínhamos sequer uma lanterna de pilhas.

Havia que continuar a viagem e foi preciso apalpar o chão com os pés, porque os olhos serviam de pouco. Tínhamos que os substituir por outro órgão sensorial menos apurado, é certo, mas funcional, os pés. Embora inseguros e contrariados, tínhamos prosseguido aquela viagem noturna e, no final, foi um enorme alívio e satisfação quando chegámos à casa sãos e sem quaisquer dedos dos pés machucados, nem unhas partidas. Apesar das dificuldades e dos enormes incómodos por que estávamos passando, prosseguimos viagem e atingimos o nosso propósito, como previsto. Que lição se pode tirar deste pequeno episódio da minha vida pessoal? É tão simples como isto: não se deve desistir por causa de fatores imprevistos que surgem no decurso da realização de um programa ou de um projeto que pensávamos mais simples. Enfim, somos chamados permanentemente a inovar e a vencer os acasos.

Ao pensar nessa nossa pequena façanha, verifiquei que era afinal uma insignificância face ao que se conseguiu com a invenção do alfabeto braille, substituindo os olhos pelos dedos da mão, utilizando a sua grande capacidade táctil. Com esta invenção brilhante de Louis Braille, ele, também invisual, eliminou-se uma grande parte do fardo da “escuridão” que envolvia a vida dos invisuais, abrindo-lhes as portas do acesso à leitura, aos estudos e ao saber, facilitando-lhes ainda a comunicação com os demais. Enriqueceu-se com isso a vida material, cultural e espiritual dos invisuais. Contudo, esta invenção, por si só, não seria suficiente. Precisava de ser completada pela compreensão, pela proteção, pela cooperação e pela solidariedade dos portadores da visão. O processo ficaria ainda incompleto se não prevalecesse, em todo esse relacionamento, o amor, o respeito e a amizade que unem e devem unir os seres humanos. Triunfar sobre a escuridão física, espiritual e moral significa erigir estes sentimentos humanos e valores éticos em regras permanentes do convívio entre nós, seres humanos.

A capacidade de adaptação do ser humano a situações e condições anormais é espantosa. Não são só os pés e as mãos que podem substituir os olhos. Há casos inimagináveis em que pessoas despossuídas dos membros superiores e das mãos utilizam os pés para escrever e pintar. São experiências comoventes ao ver como os seres humanos são versáteis, inteligentes, diligentes e capazes de pensar e suplantar, sem inibições, as suas próprias limitações e deficiências.

Em todos esses processos de empenhamento e de vontade de autossuperação e de criatividade, a mente humana (o espírito) desempenha um papel fundamental e insubstituível. Daí que seja também indispensável reservar-lhe um cuidado muito especial para que se mantenha sã, ativa e criativa. Contudo, não se deve dedicar atenção exclusivamente à mente, mas, igualmente ao seu sustentáculo físico que é o corpo humano, a fim de se poder dispor da dupla garante da ação e da criatividade, “uma mente sã num corpo são”, cujas interação e retroalimentação são os principais responsáveis pelo aperfeiçoamento e pelo estímulo ao seu desempenho e à sua laboração. Em tempos conturbados e desafiantes, como estes, pelos quais o mundo e a humanidade passam, em que é fundamental afastar o desânimo e o derrotismo e manter-se otimista e focado na busca de respostas e soluções para os complexos desafios, de toda ordem, com que a nossa casa comum se confronta, escolhi como tema deste editorial, o primeiro de 2022, esses três exemplos bastante fecundos, que ilustram bem a riqueza e a versatilidade do corpo humano, assim como, as enormes potencialidades e capacidades da nossa mente. Estas qualidades-recursos preciosos e inesgotáveis são o nosso bem maior, sobretudo, quando e se utilizados para criar, inovar, inventar e efetivar soluções, a fim de se resolverem os complexos desafios e problemas com que o Mundo e a Humanidade se confrontam atualmente. Trata-se afinal de uma questão de Sabedoria, de Sensatez e Solidariedade, também, de Humildade, Amor e Respeito pelo Outro! Enfim, é o Humanismo colocado no centro do nosso Pensamento e Ação!

Nu podê, sim! Pâ kel lâ, nu djunta mon!

Pedro Pires Março de 2022

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