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23 Março 2022 | Vista 925 vezes |

UMA RECUPERAÇÃO FEMINISTA PARA A PANDEMIA

De acordo com o último relatório do Fórum Económico Mundial, Global Gender Gap Report 2021, devido ao impacto da pandemia da COVID-19, que continua a fazer-se sentir, outra geração de mulheres terá de esperar pela paridade de género, visto que a redução do ‘gap’ global de género aumentou de 99,5 anos para 135,6 anos. A pandemia não só acentuou as disparidades de género pré-existentes, mas também criou novos obstáculos na construção de sociedades e economias inclusivas e prósperas. Os sectores mais duramente atingidos pelo confinamento e pela digitalização rápida foram aqueles que empregam mais mulheres. Combinada com as pressões adicionais de prestação de cuidados no lar, a crise travou o progresso no sentido da paridade de género em várias economias e indústrias.

A crise da COVID-19 acelerou a automatização e a digitalização do mercado de trabalho. O mundo digital é agora um "facto da vida" para cada vez mais mulheres. Um inquérito da AXA mostra que, durante a pandemia, mais mulheres usaram ferramentas digitais para manter contacto com amigos e familiares, para gerir a sua saúde e assuntos financeiros, bem como para fazer compras e supervisionar a escolaridade dos seus filhos. A Internet tornou-se um instrumento de comunicação vital, permitindo que várias comunidades lidassem com a crise e viabilizando muitas indústrias nas suas adaptações durante a pandemia. Mais de dois terços (68%) das mulheres utilizaram tecnologias digitais para trabalhar a partir de casa, pois escritórios, fábricas e outros locais de trabalho fecharam durante os períodos de confinamento.

Ao mesmo tempo, a pandemia salientou importantes desigualdades no acesso ao mundo digital. Estima-se que 3,6 mil milhões de pessoas não estejam ligadas à Internet em todo o mundo, incluindo 900 milhões em África. Apenas 27% das mulheres em África têm acesso à Internet e apenas 15% delas podem dar-se ao luxo de a utilizar. As pessoas sem acesso à Internet não puderam receber informações atempadas sobre a crise. Enquanto a nível mundial, os homens têm 21% mais probabilidades de ter acesso à Internet do que as mulheres, as disparidades se acentuam para 52% nas economias menos dinâmicas. Mesmo quando as mulheres ganham mais acesso à Internet, estas enfrentam barreiras adicionais que as impedem de participar plenamente, incluindo normas sociais e aprovação familiar. As meninas e mulheres têm mais probabilidades de ter de pedir emprestados dispositivos aos membros masculinos do agregado familiar, que muitas vezes controlam e monitorizam a sua utilização.

Um estudo da International Finance Corporation (World Bank Group) conduzido em 13 países africanos revelou que um quarto de todas as pequenas e médias empresas não conseguiu continuar a operar durante a pandemia, mais de metade precisou de adaptar os seus modelos empresariais para continuar a operar, e quase 90% enfrentou perdas de receitas. As pequenas empresas lideradas por mulheres tiveram um impacto pior do que as lideradas por homens, em grande parte devido à sua menor dimensão e maior concentração em sectores fortemente afectados. Em particular, as empresas lideradas por mulheres enfrentaram dificuldades acrescidas em assegurar novas encomendas e inputs, e isto foi ainda mais prevalecente nos sectores do comércio, hotelaria, tecnologia da informação e construção.

Quase dois anos após o início da crise, a pandemia continua a expor desigualdades profundamente enraizadas nos nossos sistemas sociais, políticos e económicos, ao mesmo tempo que sublinha a confiança da sociedade nas mulheres, tanto na linha da frente como em casa. No entanto, um recente inquérito global conduzido pela Ipsos para o Dia Internacional da Mulher 2022 concluiu que, embora a maioria das pessoas reconheça que existe desigualdade de género, uma pequena minoria (18%) ainda acredita que não exista. Isto é mais comum entre os homens, que também são mais susceptíveis de questionar se o feminismo faz mais mal do que bem, de pensar que a masculinidade tradicional está sob ameaça e de dizer que os homens perderam devido ao feminismo. Isto apesar da maioria dos indicadores mundiais apontarem para uma regressão no progresso em prol da igualdade de género.

Este é um momento crítico para partilharmos melhores práticas, a fim de construir sociedades mais justas e mais inclusivas na sequência da crise. Ao emergirmos do outro lado da pandemia, é essencial que todos contribuam para reduzir desigualdades enraizadas que limitam a plena participação das mulheres na sociedade, bem como as oportunidades de liderança. No Global Institute for Women's Leadership (KCL) estamos a assumir um papel activo no trabalho com as partes interessadas, para pensar como podemos reconstruir - e de uma forma que não deixe ninguém para trás. Isto deve incluir as mulheres, que sabemos terem sido mais duramente atingidas pelos impactos sociais e económicos da pandemia. Na nossa coleção Essays on Equality, em 2021, dedicámos duas edições com contribuições de colegas de todo o mundo para analisar como podemos concretizar uma recuperação feminista para a pandemia.

Aleida Borges, Global Institute for Women's Leadership - King’s College London

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