POR UMA LINGUAGEM PROMOTORA DA DIGNIDADE DE TODAS AS PESSOAS
“No mesmo mundo onde o plural e o universal se conjugam no masculino, o poder político e económico também o fazem. Visibilizar mulheres e homens na linguagem responde ao questionamento desse desequilíbrio tão refinadamente naturalizado.” - Sarah Babiker
Certamente já participou em algum evento em que, perante uma assistência composta por homens e mulheres, a pessoa que intervém saúda-os de maneira destacada, com um “Minhas Senhoras e Meus Senhores” ou com um “Bom dia a todos e a todas”, por exemplo. Provavelmente também já terá visto nas redes sociais ou recebido emails em que algumas palavras estão escritas de maneira inusitada: “Exmxs. Senhor@s”, “Prezades”, entre outras.
Linguagem inclusiva em termos de género. Dito de modo simples, comunicar de modo a que todas as pessoas se sintam representadas e respeitadas. Não sendo propriamente uma temática que esteja na agenda pública no nosso país, provavelmente por se considerar tratar-se de uma dimensão trivial na luta contra a desigualdade de género, e apesar de não ser especialista na temática, propus-me partilhar algumas reflexões que se fazem, noutras geografias, a este respeito. É Março, mês que assinala o Dia Internacional da Mulher que, nascido sob o signo da luta trabalhista, corporiza na atualidade a luta mais ampla pela igualdade de direitos e oportunidades, incluindo os das pessoas com identidades de género “não-hegemónicas”, e por mais justiça social. Calha bem.
Tem a sua génese nos movimentos feministas que, denunciando a invisibilização das mulheres, pela regra do “masculino genérico”, ou a sua subalternização na linguagem, nas suas diferentes formas - veja-se, a título de exemplo, a maneira como homens e mulheres são representados na publicidade -, bateram-se por um tratamento mais igualitário e justo entre os dois sexos nesta matéria. Por força dos movimentos LGBTQIA+[1*], viria a assumir a condenação à cisheteronormatividade[2*]
vigente, chamando a atenção para a necessidade de atender aos direitos e à representatividade, na linguagem, das pessoas não-binárias, que não se revêem exclusivamente nas categorizações masculina ou feminina, perfilhando antes identidades de género que englobam, em graus variáveis, características de ambas.
Efetivamente, a desigualdade de género perpassa todas as esferas da vida em sociedade, havendo mesmo quem diga que é a primeira de todas as desigualdades. A linguagem não é exceção. Essencial à vida humana, é um instrumento crucial na formação da nossa identidade, da nossa autoconsciência e da apreensão e significação do meio que nos cerca. Sendo uma construção social, é, por isso, profundamente influenciada pelas crenças, valores, normas e relações de poder vigentes num determinado momento histórico, reproduzindo e reforçando estereótipos e preconceitos existentes, os quais são transmitidos através do processo de socialização, primária e secundária.
Visando contrariar este estado de coisas e, no quadro de ações mais amplas de promoção da igualdade de género, organismos internacionais, desde logo a Organização das Nações Unidas para a Ciência e Cultura (UNESCO), em 1999, Parlamentos, Governos, Câmaras Municipais, Organizações da Sociedade Civil, Universidades de vários países, adotaram documentos orientadores e guias de linguagem inclusiva para serem utilizados nas suas comunicações internas e externas.
As propostas incluem, no que se refere à língua portuguesa - que, contrariamente a outras, não possui um género neutro -, desde as formas duplas, nomeando mulheres e homens (“os professores” e “as professoras”) às formas neutras, sem referência ao sexo, fazendo uso, entre outros, de substantivos sobrecomuns, coletivos (“a classe docente”) ou pela substituição dos sinalizadores de género nas palavras por símbolos como “@”; “x”[3*]
, ou pelo “e”, “i” ou “u” (“amigues”, “bonitis”), estas últimas mais controversas porque encerrando alterações à própria língua. Seja porque está na moda o politicamente correto, seja porque não se lhes reconhece grande importância na promoção da igualdade de género ou porque vão tornar mais morosa a comunicação ou ainda porque há normas linguísticas a serem preservadas, são várias as razões apontadas para se lhes resistir, contribuindo, assim, para a manutenção da relação de poder prevalecente, em que as mulheres e os grupos minoritários são secundarizados e privados do direito de expressarem a sua identidade.
Tentei escrever de maneira inclusiva. Porque acredito no potencial de transformação de nossas sociedades patriarcais em direção a sociedades mais plurais e democráticas pela pela via de uma linguagem promotora da dignidade de todas as pessoas. Custa um pouco mais, é certo. Requer empatia.
[1*] - Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero, Queer, Intersexo, Assexuais e Mais
[2*] - Para, Sá e Szylit (2021), uma sociedade cisheteronormativa é aquela na qual a cisgeneridade (identificação com o género atribuído à nascença) é a norma e os padrões de comportamentos heterossexuais são dominantes, estigmatizando e punindo todos os que fogem a essa norma
[3*] - Estão a ser abandonadas, entre outras razões, porque inapropriadas para a leitura por parte de pessoas com deficiência visual.
Tatiana Neves, Socióloga
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