NÃO HÁ DESCANSO PARA QUEM QUEIRA VENCER!
Estamos a meio do ano. Dá para se perscrutar a caminhada feita. Entre os obstáculos por ultrapassar, os estragos da covid-19 estão patentes, por todo o lado. A nova normalidade pretendida tarda a se afirmar. A não ser que dela sejam partes integrantes mais pobreza, mais desemprego e mais violência. Se assim for, será necessário repensar e arrumar as ideias em novos modos.
Entrementes, a situação geral vem-se deteriorando e complexificando. Às complicações do pós-covid, que continua ainda presente e perturbador, juntam-se as complicações derivadas do conflito e do pós-conflito ucraniano, a que se deve juntar a sua boa ou má condução e gestão. O somatório das suas variadas e pesadas consequências será enorme, diria incomensurável. Constituirão alguns dos parâmetros da nova ordem mundial, de que já se fala? O que isso poderá significar para “os mais pequeninos” que não têm para onde se virar?
Do meu limitado nível, tenho tido dificuldades em apreender a magnitude desses megafenómenos. Escapam-me os dados essenciais que envolvem este acontecimento dramático e extremamente complexo que, entretanto, observo com muita inquietação e acompanho com atenção redobrada.
É impossível ser-se indiferente às comoções que vem provocando e às perguntas e dúvidas que deixa em aberto. Porém, não me sinto habilitado nem vocacionado para entrar em debates das grandes estratégias mundiais que me ultrapassam. Prefiro situações mais simples, mais terra-a-terra, e pensar e agir a nível do concreto, de acordo com a nossa pequenez e pouca significância, sem correr o risco de ser incompreendido, maltratado e esmagado. A humildade e a cautela a isso me obrigam.
Reportando-me ao concreto, ao cabo-verdianamente-centrado, estamos nas vésperas do 47º aniversário da nossa Independência, uma opção política francamente audaz e temerária, que nos incumbe gerir por todo o tempo. É o nosso destino de vida!
Não restam dúvidas de que a ousadia, as dores do parto, os sacrifícios, as renúncias pessoais e coletivas, os intensos investimentos materiais e emocionais de duas gerações de cabo-verdianos têm sido produtivos e amplamente compensadores para o progresso do povo corajoso das nossas ilhas.
A caminhada tem sido muito laboriosa e os resultados e ganhos, por sua vez, têm sido visíveis, concretos, mensuráveis e profícuos. Porém, os ganhos, os avanços e a solução dos problemas e desafios precedentes não significam a abertura de uma via-dupla de facilidades, sem mais problemas, sem mais desafios nem obstáculos materiais, políticos, culturais, morais e psicológicos.
Pelo contrário, parece ser lei do desenvolvimento político e socioeconómico que faz com que as soluções descobertas e os ganhos conseguidos e acumulados tragam satisfações e melhorias do bem-estar social sem, contudo, conduzir a uma completa acalmia de necessidades ou de correções de rumo. O mais natural é que surjam novos desafios e maiores exigências. Creio que é o que está a acontecer connosco, neste momento: novos desafios, mais exigências e novos perigos.
Estamos desafiados a não depor as armas e a continuar a investir, a aprender e a agir com empenho e visão. A norma operativa seria fazer da nossa experiência pessoal e coletiva um espaço de aprendizagem permanente com os ganhos conseguidos, com os obstáculos vencidos e, também, com os erros e os insucessos acumulados. O caminho seria gradualista: à medida que caminhamos, vamos aprendendo e corrigindo os rumos, aperfeiçoando os métodos e aprimorando a preparação e a escolha das metas e dos objetivos por alcançar. Diria, vamos aprendendo fazendo, num espírito de auto-capacitação permanente. Esta me parece ser a atitude sábia e aprendente a se adotar na nossa vida pessoal e coletiva.
Enquanto handicap, estamos bastante desarmados e despreparados. Dispomos de uma fraca capacidade de previsão e de antecipação, pois, não possuímos as ferramentas de acompanhamento e de análise imprescindíveis, sobretudo, quando predomina uma conjuntura volátil, em que a incerteza e o imprevisto fazem regra. Nestas circunstâncias, os novos desafios são uma constante. A nova provação seria aprender a viver, a liderar de forma diferente e a decidir em tempo de volatilidade e de incertezas, em que a flexibilidade e a intuição são as ferramentas imprescindíveis e o objetivo a longo-prazo se confunde com a caminhada para o atingir.
Os desafios são tantos que a conclusão que me parece mais sábia é que não pode haver descanso para quem queira lutar, progredir e vencer. Porque se está permanentemente desafiado!
Koraji i djunta mon!
Artigos recentes
» SOLIDARIEDADE COM A ILHA DO FOGO» EDITORIAL: “O SUCESSO DE UMA JORNADA QUE NOS INTERPELA”
» ROSAS NO CAMINHO: O QUE A CHINA DE HOJE NOS ENSINA – E OS DESAFIOS QUE NOS COLOCA
» A ÁFRICA E O FIM DAS CERTEZAS MULTILATERAIS
» AMÉLIA ARAÚJO: A VOZ QUE NÃO SE APAGOU
» EDITORIAL: “A ENORME FELICIDADE DE PENSAR"
» EDITORIAL: “PELA LUCIDEZ REFLEXIVA E PELA INTELIGÊNCIA POLÍTICA"
» EDITORIAL: “VIVA A REPÚBLICA DE CABO VERDE"
» A PERDA QUE NOS INTERPELA
» EDITORIAL: “50 ANOS, 50% DE IGUALDADE POR CONQUISTAR!"
» EDITORIAL: “DILEMAS E ESPERANÇAS PARA 2025"
» PEDRO PIRES E AMÍLCAR CABRAL: COMPANHEIRISMO, FRATERNIDADE E PROXIMIDADE*
» LIDERANÇA NO MOVIMENTO SINDICAL CABO-VERDIANO
» EDITORIAL: "PELA LUCIDEZ E PELA VERDADE!"
» PARTICIPAÇÃO DAS MULHERES NA LUTA PELA INDEPENDÊNCIA DE MOÇAMBIQUE
