ARTIGOS
Artigos do IPP
28 Março 2023 | Vista 1226 vezes |

EDITORIAL: “IGUALDADE, EQUIDADE E PARIDADE!

Março vem representando, no ideário moderno da nossa sociedade, o mês dedicado à causa da emancipação e da luta árdua pela conquista da equidade e paridade política, cultural e social, protagonizada pelas mulheres cabo-verdianas, porventura, há mais tempo do que se pensa. Neste sentido, deve permanecer na agenda do IPP o propósito da sua defesa, da promoção de ações de consolidação dos ganhos alcançados e do aprofundamento das mudanças progressistas de valores e de comportamentos sociais ocorridos, na intenção de se avançar mais e de se afastar os riscos de regressão.

Não resta dúvida de que a causa da emancipação da mulher já ganhou raízes na maioria das sociedades contemporâneas, incluindo a nossa sociedade. Tem feito progressos incontestáveis e irreversíveis, variando, contudo, com as resistências experimentadas em algumas culturas e religiões dominantes. Entendo que a emancipação feminina não se restringe apenas a uma questão de género. É muito mais do que uma mudança de situação jurídico-legal, porquanto, se está perante uma aspiração maioritária de impulsionar uma transformação sociocultural de fundo (uma revolução de valores), combinada com a criação de bases éticas e culturais para a configuração de uma sociedade diferente, mais equilibrada, baseada em relações humanas assentes na igualdade e na corresponsabilidade, entre o homem e a mulher, enquanto sustentáculos primários do devir comparticipado, que se ambiciona para as Famílias e para a Humanidade.

A consolidação e o aprofundamento do processo transformador e modernizador dessas relações humanas discriminatórias e pertinazes pedem uma ação coletiva permanente e paciente, das mulheres e dos homens implicados. Pois, as mudanças de sociedade são fenómenos longos que reclamam o impulsionamento organizado, a clarividência e, sobretudo, muito empenho. Requerem persistência porque os preconceitos e as inércias herdadas do passado, próximo ou longínquo, são teimosos e, sem se dar conta, somos reféns da tradição e podemos estar reproduzindo hábitos obsoletos e perniciosos herdados desse passado-presente, tais como, a ideia da inferioridade da mulher. Outrossim, as mudanças sociais requerem, inclusive, a renovação da linguagem e, por isso, devemos estar atentos quando nos expressamos para que não estejamos a veicular, precisamente, aquilo que queremos remover.

No meu entender, as transformações substanciais requeridas por essa “revolução social” devem ser abrangentes, situando-se, prioritariamente, nas esferas da cultura, da ética e dos valores humanos, em que se é chamado ao combate paciente de si-mesmo e dos preconceitos instalados e fomentados por uma prática reprodutora e legitimadora de privilégios sociais tácitos seculares. Pela sua enorme capacidade transformadora, entendo que a educação de qualidade, transformadora e progressista, pode constituir a ferramenta mais adequada para se desvencilhar das armadilhas mentais e dos preconceitos tenazes escondidos.

Ao longo do percurso secular de vida do ser humano, encontram-se certas variáveis que têm sido repetidas e usadas, sistematicamente. Vou examinar duas de entre elas: o fascínio possessivo pelo poder, na sua grande diversidade, em natureza e em graus, e o uso pertinaz da violência, também nas suas diversas formas, para realizar interesses e fins ilegítimos.

Vejo a discriminação das mulheres como um caso de poder e de uso do poder conferido, contextual e preconceituosamente, ao homem pela sociedade ou pelas sociedades, durante séculos, que este tem vindo a monopolizar e a desfrutar para discriminar e oprimir, sem pudor, a mulher, afinal, sua companheira de viagem insubstituível.

Não será por acaso que, ultimamente, tem-se insistido bastante na Liberdade, mas, excluindo, propositadamente, a sua “irmã gémea”, a Igualdade. Esta omissão não está destituída de sentido, porquanto, significa que os beneficiários do status quo querem conservar o poder de que dispõem de dominar e de oprimir o Outro e tudo farão para conservar esse poder discricionário.  

Pelas catástrofes que têm marcado a História, recente e longínqua, está mais do que evidente que a Humanidade precisa de uma outra visão-de-si-própria e carece do sustentáculo de uma Civilização diferente, baseada num novo Humanismo, generoso, comprometido com o Planeta e com o Futuro da Civilização Humana. Proponho como lema desta quadra política “Liberdade com Igualdade”, ao serviço da promoção da Igualdade, da Equidade e da Paridade de Direitos para a Mulher!

Pedro Pires, Patrono do IPP - Março de 2023

Menu Top