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10 Dezembro 2023 | Vista 2356 vezes |

EDITORIAL: “DE LUCIDEZ E GENEROSIDADE, PRECISA-SE!

Esta é a altura em que se costuma fazer o balanço do ano transcorrido e lançar o olhar prospectivo em direção ao futuro próximo. Estamos em finais de 2023 e aproximamo-nos, a passos rápidos, do início de 2024. O que se nos oferece alvitrar?

Não podemos afirmar que o ano transcorrido tenha sido bem-sucedido. Muito pelo contrário, os aspectos ruins e ameaçadores foram, no geral, muito superiores aos aspetos positivos, o que representa, por si só, um sinal de crise. Do lado nacional, apesar do dinamismo e das ambições férteis que nos caracterizam, o nosso pequeno país não tem a dimensão e o peso necessários para marcar o mundo. É o contrário que acontece. É o mundo que nos impõe a sua passada implacável, à qual somos chamados a nos adaptar.

Porém, apesar de diversos aspetos críticos, as condições prevalecentes no nosso país continuam sustentáveis. Não significa, contudo, que tudo estivesse impecável ou que os riscos e os erros tivessem desaparecido de súbito. Continuam presentes, porquanto não se pode considerar como uma situação normal aquilo que é anómalo e nocivo! Urge corrigi-los!

O mundo, por seu lado, está a atravessar um período delicado e intimidante, o que, entretanto, não deve levar-nos ao desânimo e ao pessimismo. A minha experiência pessoal ensinou-me que, mesmo face ao pior cenário, deve-se manter lúcido, confiante e sereno.

Os problemas e os desafios, mundiais ou locais, maiores ou menores, graves ou simples, têm sempre solução. Cabe aos seus provocadores encontrar as soluções. Tudo irá depender da vontade, da lucidez e do empenhamento conveniente dos principais intervenientes no processo, a que consideraríamos como os seus agentes determinantes. Como entender este nosso mundo e os seus problemas?

A humanidade não é homogénea, longe disso! É plural e composta por sociedades diferentes, por pessoas diferentes, com culturas diferentes, com religiões diferentes e com interesses políticos e aspirações ao progresso diferentes. Emprestando uma ideia lúcida à filósofa Hannah Arendt, afirmaria: “Quem habita este planeta não é o Homem, mas os homens. A pluralidade é a lei da Terra.”[1] É essa pluralidade de culturas, de valores e de interesses espirituais e materiais que é preciso reconhecer, ter em conta, respeitar e resguardar.

Falando da diversidade e da pluralidade, está-se a falar da alteridade, do Outro, do diferente e das relações com ele. A questão política essencial é a definição e a escolha do tratamento que se reserva ao outro, aos seus direitos e interesses legítimos e ao estabelecimento, com ele, de relações pacíficas, honestas, equitativas e duradouras.

Deve-se compreender que o recurso ao cilindro compressor da violência e da superioridade da força militar nunca será suficiente para dominar, silenciar e transformar as outras sociedades, impondo-lhes o pensamento único, a ordem única e o modelo político, social e cultural único, enquanto reprodução dos modelos de poder da potência dominante, considerado superior e, mais, o símbolo das virtudes, do futuro e do progresso humanos. Até hoje, esse método tirano e despótico tem trazido mais desgraças do que vantagens reais às sociedades e aos povos submetidos e humilhados. Nas relações humanas, nada, incluindo o uso desmedido da força bruta, reúne recursos bastantes para substituir os valores humanistas do diálogo, da lealdade, da conciliação e da salvaguarda de direitos e interesses legítimos dos contendores. Com efeito, a força e a violência, geralmente, não erradicam o suposto mal, que se pretende extinguir, transferem-no, com maior gravidade, às gerações futuras. São heranças custosas e perversas que não se devem transferir aos vindouros. Optando por essa insensatez insana, corre-se o risco muito sério de cometer o crime trágico de genocídio, como aconteceu em tempos passados.

Em contraposição às imagens questionadoras, cruéis e irracionais, que os ecrãs das televisões mundiais e outros meios modernos de comunicação nos têm oferecido, sem solicitação nossa e gratuitamente, trago à reflexão a afirmação interpeladora do teólogo suíço, Hans Küng (1928-2021), de que “não haverá nenhuma nova ordem do mundo sem uma consciência ética universal”. Significa que a consciência ética prevalecente e observada, seletivamente, pelas lideranças mundiais, é insuficiente e está obsoleta. Logo, impõe-se-nos despertar e agir pela emergência e pela instituição de uma nova consciência ética universal ao serviço de todos, sem a exclusão das comunidades humanas tratadas como párias. Em jeito de complemento a esta reflexão, avanço algumas ideias que podiam representar os valores e os princípios em que se fundaria esta nova ética universal. Entendo que seria necessário destacar, para a fundação de relações humanas e interpessoais saudáveis e altruístas, os princípios da igualdade e da equidade, o espírito de partilha, de cooperação e de responsabilidade comum, a generosidade e o amor pela humanidade, pelo Planeta e pelo Universo, enfim, a defesa e o progresso do bem comum e da ética da responsabilidade comum ao serviço da humanidade plural e da defesa do futuro mais seguro e mais previsível para todos.

Finalmente, esta quadra convida-nos a apropriar-nos dos seus simbolismos generosos e humanistas. Assim, auguro para o próximo ano a solução dos problemas e desafios maiores com que o mundo se confronta, o retorno à Paz, à Segurança para todos e o regresso ao Diálogo e à Cooperação no seio das instâncias internacionais para que haja uma maior estabilidade, mais segurança física e humana em prol da prosperidade, da justiça social e da solução dos desafios graves colocados pela mudança climática e pelo aquecimento global.

Acreditem: fazem-nos falta a lucidez e a generosidade! Bem-haja, aos nossos Leitores e Seguidores!

Pedro Pires, Patrono do IPP - Dezembro de 2023

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