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25 Março 2024 | Vista 2276 vezes |

OS (DES)CAMINHOS DA EMANCIPAÇÃO: AS MULHERES EM CABRAL

“(...) duas cabeças valem sempre mais do que uma cabeça (...)”

Mário de Andrade (Org.), A arma da teoria - Unidade e luta (Obras escolhidas de Amílcar Cabral), vol.I, Lisboa, Seara Nova, 1976, p.172-175 (cit., p.154).

O processo de construção nacional na Guiné-Bissau foi longo, lento e complexo. Nos primeiros anos da independência [1], a condição das mulheres caracterizava-se, fundamentalmente, pela existência de duas realidades distintas: uma relativa à mulher que acabava de chegar das regiões libertadas, que tinha participado na luta armada e que já tinha conquistado a sua emancipação política; que tinha lutado juntamente com os homens não apenas pela liberdade e pela justiça, mas sobretudo para a sua própria libertação. A outra situação dizia respeito às mulheres que tinham permanecido nas zonas controladas pelo poder colonial português e submetidas a várias formas de domínio masculino e de desigualdades. Ao teorizar a luta armada na Guiné “Portuguesa”, Amílcar Cabral realçou o papel das mulheres na revolução e na construção do futuro estado independente. Na sua concepção, o processo nunca seria vitorioso sem a inclusão das mulheres em todas as dimensões da luta. Para que houvesse avanço, era necessário ter a justa compreensão “...das realidades particulares de cada coisa para podermos orientar a luta corretamente...”, em que a mulher constituía o fulcro.

O tema da emancipação das mulheres foi recorrente nos debates e nas reflexões de Amílcar Cabral. Nos encontros de mobilização que mantinha regularmente com populações das regiões libertadas, em que eram discutidas questões de interesse coletivo, a temática era sistematicamente abordada: da necessidade de um trabalho efetivo no sentido da promoção de uma mudança de mentalidade (“...no começo os homens não queriam reuniões com as mulheres. Passo a passo, não forçamos, enquanto noutras áreas as mulheres entraram logo nas reuniões sem problemas...”), da luta pelos direitos das mulheres (“...depois da guerra, as mulheres e as meninas voltarão para as aldeias como enfermeiras e professoras ou então trabalharão no comércio...casar-se-ão se o desejarem mas não haverá mais casamentos forçados...” (Gérard Chaliand, Armed struggle in Africa: with the guerrillas in “Portuguese” Guinea, Monthly Review Press, 1969, cit., p.93)).

No entanto, volvidos mais de cinquenta anos da independência conquistada em Boé, parece importante questionarmo-nos sobre o alcance das ideias e do discurso de Cabral no que respeita à condição das mulheres guineenses. Ainda mais importante, sobre a compreensão que as mulheres têm desse processo e como essa experiência tem sido transmitida entre gerações. Quais os maiores ensinamentos e que uso fazer deles na contemporaneidade? É inegável o facto de que a luta de libertação nacional tenha constituído um momento fundamental de autoconsciência das mulheres relativamente aos seus próprios direitos. A contraposição ao domínio masculino instalado foi real e contribuiu para a mudança de mentalidade (“...a posição das mulheres era de grande atraso...trabalhava até ao pôr do sol, ia buscar água para o marido se lavar. Era bastante submissa...agora as mulheres fazem parte dos comités de tabanka (termo em Kriol da Guiné-Bissau que significa aldeia) e chegam a ser eleitas presidentes desses comités. Os homens já aceitam que as mulheres participem em reuniões e compreendem a importância…” (Sowing the first harvest. National reconstruction in Guinea-Bissau (interview to Carmen Pereira: Women revolutionary), Oakland, CA, LSM Information Center, 1978, p.63 (Centro de Informação e Desenvolvimento Amílcar Cabral, Lisboa, cota-GW-H I-10)).

No entanto, pensando na evolução sociopolítica do país desde a sua independência, constatam-se os múltiplos desafios com que o mesmo se confronta, em particular modo no concernente às mulheres. A realidade hodierna bissau-guineense apresenta-se complexa: as diferenças entre o contexto rural e o urbano são gritantes, traduzindo-se não poucas vezes em desigualdades de género e de oportunidades em detrimento das mulheres, ainda que os esforços e alguns resultados em termos da autonomia e da equidade sejam notáveis. Existe uma necessidade concreta de pensar e de pôr em prática uma “Agenda das Mulheres” substantiva, com temáticas comuns e transversais, que não olhe apenas para os aspetos formais e “politicamente alinhados” e que se preocupe com a transmissão do conhecimento às gerações dos mais jovens (“... a história das mulheres na luta é uma história pouco conhecida...mas eu estou convencida que uma mudança substancial está a acontecer...” (Entrevista de Nelvina Barreto (política guineense), da minha autoria, 21/09/2023, virtual (via skype), texto em publicação.)). Uma Agenda que identifique e priorize as preocupações das mulheres e que, acima de tudo, proporcione o debate de ideias, resgatando, na medida do possível, o valor da solidariedade herdado da luta de libertação. Mas, para que isso seja possível, é fundamental criar um espaço de diálogo permanente no qual se possa refletir, criar, ousar e inovar, em liberdade, bem como proceder à criação, implementação e institucionalização dessa “Agenda das Mulheres”. Espaço no qual seja possível aprender com a história e promover a mudança efetiva de mentalidade. É minha convicção de que a luta armada constitui uma inspiração e experiência empírica de referência.

Patrícia Godinho Gomes, Programme Officer - Research Programme CODESRIA (https://codesria.org)

[1] A Guiné-Bissau conquistou a própria independência nacional através de um ato unilateral, a 24 de Setembro de 1973, em Madina de Boé, após uma década de luta armada, reconhecida por Portugal a 10 de Setembro de 1974.

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