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30 Julho 2024 | Vista 1755 vezes |

EDITORIAL: "PELA LUCIDEZ E PELA VERDADE!"

A sinceridade e a lucidez clamam por que não se sirva de imposturas e de tergiversações para esconder ou minorar aquilo que, abertamente, não esteja bem. Na verdade, estamos a passar por um tempo surrealista, em que tudo parece estar a virar ao avesso!

O clima tem dado sinais dramáticos: vemos o calor tórrido em climas outrora temperados; chuvas torrenciais e inundações mortíferas, onde não eram habituais; secas e terras ressequidas em climas temperados, onde a humidade era bastante e chovia regularmente. Em nome de lucros desmedidos, apesar de múltiplos apelos à precaução, destroem-se florestas e desbravam-se mais terras virgens, quando não era necessário e só bastava recuperar as terras deterioradas e abandonadas. A lógica da agroindústria tem sido a cegueira e o não-pensar nas consequências. Durante décadas dominou na economia mundial o “deus” petróleo, super poluente, agora, ao que tudo indica vai dominá-la o “deus” lítio, cujas consequências têm merecido um alerta preocupado dos defensores do meio ambiente. A par disso, enquanto os pólos de riqueza se engrossam e se restringem, os pólos de pobreza e de desigualdades se ampliam e se definham.

As guerras, que davam sinais de algum recuo, reacenderam-se. Registam-se guerras de toda natureza e para todos os gostos. Para além das guerras abertas, há ainda as guerras furtivas ou secretas, que são as mais danosas e perigosas. Os argumentos não convencem, são quase sempre parcelares e falaciosos.

Na verdade, se está perante guerras e celeumas pelo poder no seu sentido lato: ou, para não perder parte do poder hegemónico, outrora alcançado, ou, para recuperar o poder antes perdido, ou ainda, para usufruir de mais poderes de acordo com os reais parâmetros económicos, financeiros, militares e tecnológicos prevalecentes. Mas, a guerra mais trágica é a religiosa que utiliza o nome ou a fidelidade a Deus, o que devia ser sagrado, para guerrear e assassinar.

Como entender essa anormalidade humana, se Deus é o símbolo da bondade e da fraternidade?

Das práxis políticas, sumiram-se os valores como a verdade, a coerência e a sinceridade! Em seus lugares impuseram-se furtivamente a impostura, a deslealdade e a manipulação.

Porém, como sempre, nem tudo é perverso e ardiloso no nosso mundo. Nas relações internas e externas tem havido sempre a oposição entre a generosidade e a barbaridade. Seria uma visão desvirtuada e redutora ver os complexos fenómenos mundiais só pela lente da desumanidade. Vou relevar dois acontecimentos transcendentes e portadores de esperança, que marcarão este ano bissexto de 2024.

Iniciaram-se os Jogos Olímpicos de Paris. É um acontecimento maior, dignificante, fraternal e universalizante. Logo, pela sua grandeza espiritual e pelo seu alto valor humanista não devia, por nada, ser adulterado. Contudo, ainda desta vez, não vão faltar os discriminados e os excluídos, por razões extra desportivas. Outrossim, pela sua abrangência e universalidade, o espírito de clãs não devia interferir no movimento olímpico, porquanto, está predestinado a ser o ponto de encontro de todos os Povos.

A competição saudável e a confraternização genuína entre os jovens do mundo inteiro é o que de mais belo pode acontecer nesta nossa casa comum. O nosso mundo, que persiste parvamente em se manter desunido e conflituoso, necessita que estas XXXIII Olimpíadas sejam unificantes, pacificadoras, solidárias, fraternas e reconciliadoras.

Por sua vez, a Humanidade terá de ser capaz de se superar e de vencer os conflitos absurdos, os preconceitos religiosos e culturais anacrónicos e as divisões ideológicas passadistas, que têm caracterizado a sua postura atual. Se não for assim, o nosso futuro ficará comprometido e será muito mais complicado. Por isso, conclamo a concretização de umas Olimpíadas inclusivas, fraternas, pacíficas, solidárias, aglutinadoras de boas-vontades e inspiradoras de relações humanas mais francas e equitativas, entre os habitantes do nosso Planeta, projetando valores universais acima de interesses estratégicos e políticos egocêntricos e de curto prazo.

O nosso País está presente nestes JJOO.24, representado por jovens atletas que conseguiram cumprir os requisitos desportivos indispensáveis. Tendo em vista as nossas condições concretas e o nosso ponto de partida, não seria razoável nem realista esperar por medalhas. Contudo, estar presente é já um enorme feito desportivo. Congratulo-me com esses ganhos e desejo-lhes um elevado espírito olímpico e desportivo, um desempenho digno e muita aprendizagem no campo desportivo e das relações humanas.

Para nós, 2024 é o ano especial dedicado à celebração do Centenário do nosso herói e inspirador maior, Amílcar Lopes Cabral.

A Fundação Amílcar Cabral (FAC), de que sou o atual Presidente, fundada por recomendação do Primeiro Simpósio Internacional Amílcar Cabral, realizado na Praia, em Janeiro de 1983, dez anos após o seu assassinato, tem desenvolvido, embora, em condições bastante precárias, um trabalho valioso de recolha, preservação, valorização e difusão do seu valioso e fecundo legado histórico, teórico, político e ético. Esse trabalho de memória tem-se fundamentado na promoção da verdade histórica, na valorização da gesta histórica, que foi a nossa causa nacional libertadora, e no respeito pelos seus protagonistas maiores, quem assegurou o seu triunfo definitivo.

Em contraposição, tem sido habitual na postura e nos trabalhos dos historiadores e analistas das antigas potências colonizadoras a preferência por uma visão paternalista e de apoucamento do papel histórico dos povos colonizados, outrora escravizados, e das respectivas lutas de libertação política, social e cultural e, em consequência, de subestimação dos contributos dos seus dirigentes e combatentes. Nesse sentido, era e é urgente e necessário pensar na “libertação” da memória de Amílcar Cabral, o nosso líder e inspirador, dessa ameaça castradora de apagamento histórico, porquanto, o pensamento ocidental dominante tem agido, de forma sistemática, no sentido da imposição do sentido histórico, que favorece os seus desígnios, quer atuais, quer antigos, e da perpetuação dos seus símbolos hegemónicos e das suas concepções históricas, o que representa um desafio que interpela os historiadores e os pensadores das antigas colónias africanas.

Pelo trabalho já realizado, por historiadores, investigadores e politólogos, honestos e imparciais, de diversos continentes, a memória de Amílcar Cabral tem vindo a libertar-se, decisivamente, dessa ameaça ideológica etnocêntrica, neocolonial e anti-histórica. Além do mais, estamos confiantes de que a ampla e abrangente celebração das comemorações do Centenário, em curso, proporcionará mais oportunidades, argumentos e fundamentos históricos para a confirmação e a consolidação do papel histórico de Amílcar Cabral e do seu pensamento inovador em todo o processo da libertação das antigas colónias africanas portuguesas, em particular, e dos Povos africanos, no geral.

Entrementes, no decurso da implementação das vastas atividades comemorativas do seu Centenário, a figura de Amílcar Cabral tem vindo a distinguir-se e a confirmar-se, universalmente, como pensador, teórico, estratega e inspirador das lutas de libertação política, social e cultural das Sociedades e dos Povos oprimidos e neocolonizados, reafirmando, igualmente, o seu lugar cimeiro no processo libertador e reformador africano e universal. Finalmente, aproveito esta oportunidade para apelar à participação generalizada e empenhada das cabo-verdianas e dos cabo-verdianos na organização e na realização das diversas atividades do Centenário de Amílcar Cabral. Pois, da sua grandeza e do seu sucesso sairemos engrandecidos, dignificados e mentalmente mais fortes!

Por Cabral, sempre!

Pedro Pires, Presidente do IPP

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