LIDERANÇA NO MOVIMENTO SINDICAL CABO-VERDIANO
Falar de liderança no Movimento Sindical Cabo-verdiano é, em certa medida, falar um pouco do meu percurso sindical, desde a década de 1970, quando, ainda jovem, me engajei no sindicalismo em Cabo Verde, tendo iniciado como delegado sindical na empresa onde então trabalhava, até ao ano de 2016, data em que deixei a vida ativa sindical e cessei as funções que vinha exercendo como Secretário Geral da UNTC-CS, passando pela década de 1980, período em que exerci as funções de Presidente de Sindicato, no caso, dos Marítimos, e da respetiva Caixa Sindical de Previdência. A liderança sindical, tal como outra qualquer, é a capacidade de influenciar, de inspirar, de motivar e orientar os trabalhadores, de uma forma geral, com vista a se alcançarem objetivos comuns.
Um/a líder sindical, em função do nível em que estiver, se num Sindicato, numa União, Federação ou Confederação Sindical (comumente chamada Central Sindical), tem, pois, de ser capaz de inspirar e capacitar os outros a darem o melhor de si, promovendo um ambiente de trabalho colaborativo e produtivo.
Há um conjunto de atributos que um/a líder sindical tem de ter para se poder impor como tal, que vão desde a empatia ao autoconhecimento, passando pela resiliência, flexibilidade e poder de decisão, até à motivação e à comunicação. Mas gostaria aqui de salientar apenas alguns.
Desde logo, a visão. Tem de ter uma visão, definindo e clarificando os objetivos e a missão da organização, garantindo que todos compreendam e compartilhem essa mesma visão.
Tem não só de demonstrar competência e conhecimento das questões da organização, tomando decisões informadas e fundamentadas, como também agir com integridade e ética, de acordo com os valores e princípios da organização, fomentando um ambiente onde todos se sintam valorizados e engajados, e jamais marginalizados ou excluídos. Tem de saber gerir os conflitos de forma eficaz, atuando como mediador/a e facilitador/a e buscando soluções consensuais que atendam às necessidades de todas as partes envolvidas.
Tem, enfim, de inspirar e motivar pelo exemplo.
É evidente que, salvo raras exceções, de líderes que parecem ter nascido já com esses atributos, que os tornam quase como uns verdadeiros líderes naturais, poucos são aqueles que preenchem todos esses requisitos.
Aliás, mesmo que alguns possam ter nascido com certas qualidades que facilitam a sua liderança, há que ter em conta que esta pode ser desenvolvida e aperfeiçoada com o tempo, através da experiência, da aprendizagem e da prática. A liderança é, no fundo, uma combinação de características inatas e habilidades aprendidas ao longo da vida. Falando de habilidades aprendidas, devo aqui dizer que pertenço a uma geração de sindicalistas onde a formação era quase que obrigatória. Era raro encontrar-se um dirigente ou delegado sindical que não tivesse passado por uma formação sindical, seja dentro ou fora do país, através da cooperação internacional.
Hoje, pelo contrário, raro mesmo, é encontrar-se um dirigente ou delegado sindical que, depois da sua eleição, e mesmo durante o seu mandato, tenha frequentado uma única formação sindical. Mas o mais grave ainda, é haver pessoas que chegam ao topo da liderança dos Sindicatos sem saberem os princípios e as regras do sindicalismo, e sem conhecerem os próprios Estatutos da organização sindical que vão passar a dirigir.
Como resultado dessa iliteracia sindical, há quem esteja a confundir a função de liderança com a de chefe. Que ao invés de inspirar e motivar, tenta impor e dar ordens; que em vez de encarar os problemas de forma serena e tranquila, buscando soluções conjuntas e consensuais, tenta resolver tudo de forma autocrática e autoritária, tomando e impondo decisões unilaterais.
Mas não se pode falar de liderança sindical sem trazer à colação o diálogo e a negociação. Aqui também se nota um retrocesso devido, sobretudo, ao défice de formação.
Hoje, convoca-se uma greve e, só depois, propõe-se o diálogo e a negociação. A greve foi, é e continuará a ser uma arma fundamental dos trabalhadores, mas deverá ser utilizada apenas em último recurso, quando forem esgotados todos os meios de diálogo. Há que seguir este princípio e esta práxis sindical, sob pena de se banalizar a greve, com prejuízos para os trabalhadores, uma vez que, durante a greve, os mesmos perdem os seus salários. Foi fruto de um diálogo permanente e uma negociação séria e responsável, levado a cabo com os sucessivos Governos e Empregadores, que os Sindicatos lograram, no passado, a fixação do Salário Mínimo Nacional, a criação do Subsídio de Desemprego e a participação dos trabalhadores na gestão do INPS, para além de outros importantes ganhos.
Há, pois, que mudar o status quo, a nível de liderança no movimento sindical cabo-verdiano, fazendo com que esta se fortaleça e não enfraqueça ainda mais. E isto, só será possível através de uma aposta forte na formação.
Júlio Ascenção Silva, Presidente do Instituto para a Promoção do Diálogo Social e Liberdade Sindical (IPRODIAL)
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