PEDRO PIRES E AMÍLCAR CABRAL: COMPANHEIRISMO, FRATERNIDADE E PROXIMIDADE*
Começo por agradecer à Diretora Executiva do Instituto Pedro Pires para a Liderança a distinção de me convidar para fazer parte do painel do XI Diálogo Estratégico do IPP, sob o lema "O País e o Homem: uma história de compromisso e luta", para celebrar o 90o aniversário do seu ilustre patrono, o Comandante Pedro Pires.
Os “Diálogos Estratégicos” constituem uma referência importante do panorama intelectual da nossa capital. Este ano, decorrem no âmbito das comemorações do Centenário do nascimento de Amílcar Cabral, ao longo das quais, naturalmente, muito estará a ser ou irá ser escrito, sobre um amplo universo de temas relacionados com a vida, o pensamento, a ação e o extraordinário legado que nos deixou a figura maior da história de Cabo Verde e da Guiné-Bissau.
Decerto, uma das pessoas que com mais autoridade e conhecimento se espera ouvir a esse propósito é, naturalmente, um dos seus mais diretos – e diletos – companheiros, o Comandante Pedro Pires – que também preside e prestigia a Fundação que tem por objetivo e missão preservar e divulgar o legado de Amílcar Cabral, a que ele vem de há muitos anos dedicando grande parte da sua atenção e energia.
Entre os dois homens construiu-se um relacionamento, caracterizado por Pedro Pires numa entrevista a académicos brasileiros (Comandante Pedro Pires: memórias da luta anticolonial em Guiné-Bissau e de construção da República de Cabo Verde / Pedro Pires; Organização de Celso Castro, Thais Blank, Diana Sichel. – Rio de Janeiro : Editora FGV, 2021, p. 53) como sendo de companheirismo, de fraternidade e de muita proximidade, citando as grandes qualidades que admirava em Cabral, tais como a capacidade de diálogo, a capacidade de persuasão, sendo uma pessoa atraente, brilhante e inteligente com quem conviveu de perto durante cerca de 12 anos de partilha de ideais e de um combate comum, até seu assassinato em janeiro de 1973.
O primeiro encontro de Pedro Pires com Amílcar Cabral deu-se em Acra, a capital revolucionária do Gana de Kwame Nkrumah, na sequência da sua fuga de Portugal, juntamente com dezenas de estudantes e quadros das colónias (Que mais tarde viria a ser conhecida por “A Fuga dos 100”). Desse momento registou a força espiritual e o (...) dinamismo, bem como a capacidade [de Cabral] de convencer as pessoas (O meu Testemunho – uma luta, um partido, dois países / Aristides Pereira. – Lisboa : Editorial Notícias, 2003, p. 529).
O percurso de Pedro Pires nas fileiras do PAIGC até atingir os mais altos escalões da hierarquia partidária, a atribuição de cargos e missões cada vez mais exigentes, refletindo a excelência dos resultados do seu empenho militante, são indicativos do elevado nível de confiança que nele depositava Amílcar Cabral.
É assim que pouco tempo depois de formalmente integrar o PAIGC são-lhe atribuídas sucessivas responsabilidades ligadas à mobilização dos cabo-verdianos para a luta, que nos primeiros anos o levaram a ter de se fixar em Rabat, Dakar, Paris e Cuba, antes de assumir as importantes funções militares de comando nas frentes Leste e Sul e ascender ao Conselho de Guerra do PAIGC.
A acompanhar essa confiança, foi-se construindo uma sólida amizade que se expressa através de pequenos gestos e atenções, mas que também se revela nos textos e na correspondência felizmente preservada até os nossos dias (Disponível através do site Casa Comum, da Fundação Mário Soares. (http://casacomum.org/cc/arquivos)).
Alguns desses pequenos gestos são lembrados por Pedro Pires, como, por exemplo quando se deslocava a Conacri, e Cabral o chamava para conversarem sobre a luta. Nessas ocasiões, ele tinha o hábito de preparar pessoalmente o café que oferecia a Pires. Outro gesto significativo foi o de, em Paris, Cabral lhe ter pedido para o acompanhar ao encontro que teve com o filósofo Jean-Paul Sartre no famoso restaurante La Coupole, onde Sartre costumava encontrar-se com outras personalidades ilustres da intelectualidade francesa e internacional.
Pedro Pires participou na preparação e acompanhou Amílcar Cabral na histórica reunião da Tricontinental realizada em Havana, em 1966, onde Cabral foi dos oradores mais aplaudidos pela sua intervenção, hoje um clássico da literatura revolucionária, traduzido em numerosas línguas e conhecido como “A Arma da Teoria”.
Outro gesto significativo foi, quando numa importante missão à URSS, o número de participantes obrigou a que os camaradas partilhassem os quartos do hotel onde foram instalados, Cabral escolheu Pedro Pires como companheiro de quarto, como ele relata numa carta à esposa Ana Maria:
Cá estou em Moscou, nas voltas e reviravoltas da minha missão. O Pedro Pires está comigo (no mesmo quarto, porque há muita gente), para participar de algumas discussões que devo ter aqui. Ele te saúda.
Quando foi decidido formar o primeiro grupo de combatentes cabo-verdianos para desencadear a luta armada em Cabo Verde, foi Pedro Pires quem foi incumbido por Cabral de dirigir o processo, começando com a mobilização e recrutamento dos militantes, que teve lugar principalmente em França. No final da preparação que decorreu em Cuba, ao fazer o balanço da missão numa carta endereçada a Aristides Pereira, Amílcar Cabral escreve:
Acho que trabalhei frutuosamente com os camaradas, que de facto me parecem do melhor que o nosso Partido já fez. São na quase totalidade comparáveis aos melhores do Partido na Guiné, e o Pires é na realidade um militante da primeira categoria.
Onde vamos, porém, encontrar alguns dos testemunhos mais eloquentes da amizade e admiração que Cabral dedicava a Pedro Pires, com expressões afetuosas e referências elogiosas que não se encontram com frequência na correspondência com outros camaradas, é na correspondência pessoal trocada entre os dois.
Por exemplo, nos inícios de 1971 Cabral agradece a Pedro Pires os seus votos fraternais de militante exemplar para o novo Ano e manifesta-lhe a sua admiração e estima, enviando-lhe um abraço do teu camarada Amílcar acrescentando, Espero ver-te em breve.
Em situações nas quais tem conhecimento de algum problema com a segurança pessoal ou a saúde de Pedro Pires, Cabral manifesta a sua preocupação e oferece conselhos. Ao saber que o Comandante tinha caído numa emboscada traiçoeira, exprime a sua inquietação na carta que lhe enviou e, referindo-se às circunstâncias do acidente, diz-lhe o seguinte:
Bem gostaria de estar contigo agora para falarmos sobre este assunto – e sobre esta condição própria às lutas como a nossa que é a traição daqueles por quem lutamos e sofremos. Espero, no entanto, ver-te o mais breve possível. Lamentando é certo os camaradas perdidos e feridos, cujos nomes espero me indiques, regozijo-me, no entanto, em saber-te bem, ileso e, como sempre, decidido a dar tudo pela vitória do nosso Partido, ao serviço do nosso povo. Todos te cumprimentamos com saudade.(18/3/72)
Tendo Pedro Pires passado algum tempo adoentado, Cabral recomenda compra mafé (carne), porque não podes enfraquecer, ou então toma cuidado contigo e dá sempre notícias.
Em situações delicadas, o Secretário-Geral do PAIGC confia em Pedro Pires para apoiar outros dirigentes com dificuldades ou restaurar a autoconfiança. Nalguns casos complicados, encarrega-o de conversar com os camaradas no sentido de os chamar à ordem: Isso podes fazê-lo tão bem como eu...
Em diversas ocasiões Cabral elogia o desempenho e a postura de Pedro Pires, como neste exemplo: Podes imaginar quanto me foi agradável ler a tua carta, mas sabes que não é para mim surpresa a tua posição firme, revolucionária, exemplar, escrevia-lhe em Abril de 1972.
Na sua correspondência com Pires, Cabral também, por vezes, relata os resultados das reuniões em que participa e manifesta interesse em conhecer o ponto de vista do seu camarada. Foi, por exemplo, o que aconteceu após apresentar à UNESCO o texto, hoje clássico, sobre o papel da cultura na luta pela independência:
Mando-te um exemplar do trabalho que apresentei à reunião de “experts” da UNESCO. Não fui lá por causa da política, mas tenho pena. Farás a tua crítica.
O desenvolvimento da luta, com as vitórias conseguidas sobre o inimigo foi trazendo cada vez maior complexidade aos problemas que o Partido tinha de enfrentar. Nos últimos meses da sua vida, alguns desabafos de Cabral na correspondência com Pedro Pires mostram a importância que ele atribuía à opinião do seu camarada.
Desejo muito poder esta contigo, para pensarmos juntos os nossos problemas da luta, diz numa das cartas que lhe endereçou por essa altura.
Em novembro de 1972 escreve-lhe de Conacri: Quando saíres para Kitáfine avisa, porque quero ver-te dentro de alguns dias (irei aí). Então falaremos mais sobre os nossos problemas, para o avanço geral da luta. Alguns dias mais tarde, a partir de Boké, volta a expressar a vontade de se encontrar com Pedro Pires para com ele discutir as questões fundamentais da luta: Estive em Kandjafra com uma compreensível nostalgia ou saudade da tua presença.... Desejo muito poder estar contigo, para pensarmos juntos os novos problemas da luta... Sente-se, neste trecho, que no momento em que escreveu a carta Cabral sentia a necessidade de escutar a opinião do seu “velho camarada”, expressão afetuosa que frequentemente utilizava na sua correspondência com Pedro Pires.
Frequentemente, Cabral termina as suas cartas com um tom pessoal e afetivo: Tem cuidado contigo e dá sempre notícias. Saudações dos camaradas todos, e o melhor abraço do velho camarada, A. C.; Abraços do teu velho camarada; o melhor abraço do velho camarada; são expressões que Cabral utiliza com frequência na sua correspondência com Pedro Pires.
De entre as cartas de Cabral para Pedro Pires, há uma que se destaca, por ser a última que lhe endereçou, datada de 19 de Janeiro de 1973, na véspera do fatídico dia do seu assassinato.
Trata-se de instruções detalhadas em 10 pontos, relativas à ação militar contra o inimigo colonialista que na altura concentrava as suas forças para, desesperadamente, tentar impedir a realização em território libertado da primeira sessão da Assembleia Nacional Popular.
Apesar de ser uma carta em formato oficial, em papel timbrado, numerado, tratando de questões vitais para a luta, Cabral condiciona uma parte do cumprimento das instruções ao estado de saúde de Pedro Pires, tem palavras afetivas para com o destinatário, e encerra a carta de maneira informal, em vez das formulações habituais nos documentos oficiais assinados pelo Secretário-Geral.
A parte final da carta diz: Por hoje é tudo, fico aguardando notícias tuas sobre a evolução da situação. Saúde e bom trabalho. O melhor abraço do camarada, Amílcar Cabral.
Foi esse, tragicamente, o último abraço que Amílcar Cabral enviou ao seu camarada e amigo Pedro Pires.
O que claramente transparece dos elementos atrás referidos é a existência de grande e sincera amizade, confiança e respeito mútuo entre os dois dirigentes, mas também que Pedro Pires ocupava um lugar destacado na atenção de Amílcar Cabral, que nele apostava fortemente, pensando no futuro dos nossos países libertos do colonialismo. A trajetória de Pedro Pires após o trágico desaparecimento do fundador do PAIGC, o seu papel determinante no curso dos acontecimentos que desde então tiveram lugar, demonstram que as prováveis expetativas de Cabral terão ficado plenamente realizadas.
Luís Fonseca, Embaixador Jubilado
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*Texto que serviu de base à participação do Embaixador Luís Fonseca no XI Diálogo Estratégico do IPP, realizado em Maio de 2024, em celebração do 90º aniversário do Patrono do Instituto. Assista aqui.
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