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29 Julho 2025 | Vista 403 vezes |

EDITORIAL: “VIVA A REPÚBLICA DE CABO VERDE"

A nossa República acaba de completar 50 anos. Transporta consigo uma questão de fundo: o que tem significado para nós, cabo-verdianos, este meio século de vida, em termos de transformação histórica, da conquista da dignidade, de benefícios, de desafios e de impulsões morais, culturais, políticas e materiais?

Por sua vez, os tempos desesperados e críticos, como eram os tempos da dominação, da miséria aviltante, do silêncio forçado, da falta de perspetiva e da despersonalização colonial, exigiam iniciativas políticas e culturais, temerárias e críticas, entretanto, apreendidas e assumidas pelos cabo-verdianos mais lúcidos e honestos, que se sentiam questionados pelo destino obscuro do país e ambiciosos de um futuro soberano e digno para o povo cabo-verdiano, então, oprimido e brutalmente sufocado. Foi nesse contexto trágico que germinou o projeto libertador, humanista e regenerador, concebido e liderado por Amílcar Cabral, ao qual aderi com muita paixão.

Cinquenta anos depois da derrota do colonialismo no nosso país, creio que decorreu tempo suficiente para se fazer uma separação de águas. Por sua vez, a verdade histórica requer a clarificação e o conhecimento da realidade vivida: o colonialismo português gerou, formou e beneficiou da participação e da colaboração de agentes e cúmplices nativos, seja no período da violência criminosa das campanhas militares da conquista colonial, seja no período mais recente das guerras de libertação com o propósito de esmagamento dos movimentos de resistência e de libertação, marcada pela negação obstinada pelo poder colonial da descolonização das colónias, pelo menosprezo da vontade dos seus povos e pela recusa arrogante do respeito das decisões da ONU.

A situação achava-se, então, pervertida. Quem se considerava depositário dos valores humanistas da cristandade e devia combater, denunciar e condenar os crimes e as arbitrariedades coloniais era, pelo contrário, seu cúmplice e partidário diligente. Assim, a missão histórica de desafiar e de derrotar, pelas armas, o sistema colonial coube aos movimentos de libertação nacional laicos, como o PAIGC.

A fundação da República de Cabo Verde, a 5 de Julho de 1975, representava o momento-chave da libertação e do assentamento dos esteios institucionais, funcionais e eficientes, do Estado soberano cabo-verdiano. Além disso, era imperioso deslegitimar, desconstruir e ultrapassar os modelos políticos coloniais e neocoloniais, fraudulentos, ineficazes e prescindíveis, e construir, em substituição, os sustentáculos sólidos das instituições do Estado soberano emergente, cujo modelo teria que ser diferente do seu predecessor colonial e, claramente, laico.

Teria que ser um Estado estratega, amplamente, reformador, forte, eficiente, credível e integrador, cuja autoridade moral e política se obrigava a abranger inteira e eficientemente os territórios e as sociedades das dez ilhas; apto a garantir a defesa da soberania nacional e a preservação da ordem e da paz social; e, por cima, capaz de apreender, enfrentar e superar os diversos e complexos desafios e problemas com que o nosso país e a sua exígua e frágil economia se confrontavam. Além disso, a liderança nacional teria que ser lúcida, perspicaz e pragmática, obrigada a agir, conscienciosamente e de forma a manter a confiança da sociedade cabo-verdiana, que estava receosa e expectante.

Considero que foi com verdade, sinceridade e lealdade que conseguimos incentivar e conquistar o apoio e a adesão da nossa Nação ao programa de governação, ambicioso e realista, que apresentámos. Foi desta forma pedagógica e leal que se conseguiu ganhar a confiança e o apoio necessário aos esforços contínuos que garantiriam a viabilização deste país e a sustentabilidade política e material das instituições do seu jovem Estado soberano, então, tecnicamente falido.

A vitória laboriosa sobre a precariedade social, a escassez de recursos financeiros e económicos e os riscos de fracasso sempre presentes foi a prova provada da possibilidade, mas, também, foi possível porque somos uma Nação diaspórica, dona de um forte sentimento comunitário de pertença e de solidariedade. Outrossim, a nossa gente estava endurecida pela resiliência adquirida e testada por sucessivas crises enfrentadas durante a nossa saga, enquanto povo persistente e intrépido.

Por sua vez, a liderança em função teve a perspicácia de recorrer às potencialidades e aos recursos incomensuráveis do investimento humano. Onde faltavam os recursos financeiros em numerários, introduziram-se os recursos imateriais, consubstanciados no voluntariado, na solidariedade nacional, no patriotismo, na participação popular, na economia social e na partilha de responsabilidades do Estado com a sociedade. Desta forma criativa e inteligente, foram ganhas as batalhas da afirmação nacional, da viabilização política, económica e social do Estado emergente e da sustentabilidade das suas instituições. Significou, de certa forma, o triunfo da vontade humana comprometida e consciente sobre o determinismo estatístico e geográfico.

Apesar da quantidade e da qualidade dos ganhos conseguidos, não me parece que estes sejam bastantes para superar a complexidade do processo em curso e assegurar, sem riscos de retrocesso, a sustentabilidade e o prosseguimento contínuo da longa caminhada do desenvolvimento e da consolidação da nossa Nação, sobretudo, quando a conjuntura mundial se mantém crítica e prenhe de ameaças de diversa natureza. Por seu lado, o Futuro almejado continua a ser um desafio complexo e árduo por ganhar.

O que podem simbolizar esses 50 anos?

Estes anos transcorridos significam a vivência e a experiência do passado recente e a participação na construção do presente complexo, que nos questiona. É fundamental que continuem a significar o empenho pertinaz e confiante, ganhos sucessivos, transformações e progressos nos diversos domínios da vida nacional, cujo somatório consubstanciarão o Futuro próspero e promissor, ao qual todos nós aspiramos.

É certo que o país está muito diferente do recebido em 1975: tem nova cara, novas pulsações e ambições renovadas. Porém, persistem os constrangimentos e problemas estruturais que continuam a pesar negativamente sobre o nosso comportamento, a eficácia e a produtividade da nossa economia e a garantia da igualdade de oportunidades. Nestas circunstâncias, torna-se necessário reconhecer os riscos, identificar os desafios e, sobretudo, estabelecer corretamente as prioridades para os ultrapassar.

Para ganhar os novos e complexos desafios, urge superar-nos e valer-nos dos recursos imateriais, da mesma confiança e vontade de vencer dos tempos iniciais da vida soberana, apostando nos sentimentos patrióticos, mas, também, mobilizando e gerando novas competências e capacidades, apoiando-se numa transformação substancial do sistema escolar, do ensino-aprendizagem, das escolas técnicas e das universidades. O domínio perfeito do conhecimento e o seu uso planeado estarão na essência das soluções e dos progressos vindouros.

O passado e o presente, mesmo que prósperos e profícuos, não substituem nem podem encobrir os desafios e as reformas multifacetadas que o futuro próximo nos está colocando. Estamos chamados a dinamizar e a potenciar a integração territorial das nossas ilhas, a reestruturar e modernizar os setores tradicionais da nossa economia, tornando-os mais atraentes, a diversificar a economia e o turismo, a priorizar os setores geradores de mais riqueza e mais emprego, a empenharmo-nos no domínio das vantagens oferecidas pelas novas tecnologias e aproveitar as promessas transformadoras anunciadas pela propalada e crítica Inteligência Artificial.

Por fim, cinquenta anos decorridos, sinto-me interpelado pela dúvida: será que Cabo Verde é tão pobre como se tem proclamado? Visto em 1975, Cabo Verde era paupérrimo e inviável.

Hoje, devemos ter uma outra leitura dos fatores riqueza e pobreza. É certo, somos pobres em minérios e recursos petrolíferos. Contudo, somos ricos em recursos imateriais e espirituais. A resposta adequada aos desafios modernos reside na priorização do investimento na Educação, na Formação e na Capacitação generalizada e permanente da nossa sociedade, especialmente das novas gerações, e na remobilização da autoconfiança, da vontade e determinação, que nos são peculiares e que nos têm possibilitado vencer os desafios, as dificuldades e as tragédias humanas que marcaram a nossa saga enquanto Povo.

Cabo Verde terá que continuar confiante, corajoso e batalhador!

Bem-haja o Povo Cabo-Verdiano!

Pedro Pires Patrono do IPP Praia, Julho de 2025

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