EDITORIAL: “PELA LUCIDEZ REFLEXIVA E PELA INTELIGÊNCIA POLÍTICA"
O ano de 2025 está prestes a terminar. A sua celebração significa o simbolismo da passagem dos cinquenta anos da conquista da independência nacional e da fundação da República soberana de Cabo Verde e, ainda, do percurso laborioso e complexo da viabilização e afirmação do projeto patriótico arrojado da libertação e emancipação nacional, enfim, da nossa realização plena enquanto Nação soberana.
A árdua caminhada feita e os êxitos conseguidos reclamavam que fossem apropriados por todos e amplamente celebrados em razão da sua significação histórica e em memória do marco histórico irrepetível e irreversível que significa o 5 de Julho de 1975.
As celebrações deste primeiro cinquentenário nacional, como seria de esperar, despertaram e acicataram os sentimentos patrióticos mais nobres, mobilizando espontaneamente a participação de cabo-verdianas e cabo-verdianos e das comunidades nacionais, no país, na diáspora e por toda a parte do mundo onde se encontrassem. Foram celebrações populares e cívicas participadas sobrepondo-se, até, às cerimónias oficiais, que, por razões outras, foram frustrantes e acanhadas.
Houve criatividade e uma vasta diversidade de atividades e de temas apresentados e debatidos nos diversos palcos e atos celebrativos realizados; verificou-se a perscrutação e a avaliação das realizações dos cinquenta anos de muita luta e de árdua labuta para a sua concretização. Em relação ao futuro, muitos foram os questionamentos e as propostas para enfrentar com sucesso os tempos vindouros. Merecem destaque a multiplicidade e a variedade das organizações e entidades singulares que participaram na organização e realização bem-sucedida dos eventos comemorativos.
Cremos que a grande maioria da nossa sociedade se implicou na realização das atividades comemorativas. Com efeito, a Nação gratificada se sentia representada na caminhada árdua e complexa conseguida e nos avanços multifacetados obtidos nesse percurso custoso, realizados “com muito empenho e arte”. Logo, havia razões suficientes para que se celebrasse com orgulho a data histórica e a caminhada feita.
Com efeito, o nosso País fez um percurso louvável. Conseguiu superar as dificuldades e os complexos desafios iniciais, que levaram a que os pessimistas o considerassem inviável. Desse ponto de partida calamitoso, conseguiu atingir um nível de desenvolvimento reconhecido pelas instituições da ONU. O mais importante, dispõe de um Estado de direito estável, contudo, por aperfeiçoar, com instituições bastante credíveis e funcionais. Além do mais, conseguiu índices elevados de realização nos setores sociais da Educação e da Saúde, aos quais se podia acrescentar o Desporto.
O nosso país cresceu, desenvolveu-se e se transformou. Isso obriga a mudanças judiciosas na sua gestão e liderança e, sobretudo, uma maior celeridade e eficácia na satisfação das novas necessidades emergentes em todos os campos de atividades. Diria que as mudanças de abordagem e de gestão são requisitos impostos pelo próprio processo de desenvolvimento, que, para ser bem-sucedido, exige alterações e aperfeiçoamento da intervenção e do papel da sociedade, dos cidadãos, do Estado e das agremiações sociais. O certo é que não é possível crescer e desenvolver-se, com sucesso, sem que haja transformações e mudanças nos métodos de liderança e de gestão e a melhoria e elevação de qualidade de atitudes e de comportamentos, seja da sociedade, seja dos cidadãos ou dos dirigentes, em particular.
Por outro lado, o crescimento e o progresso contínuos, exigem uma visão estratégica, são avessos ao imobilismo e ao comodismo e reclamam sempre por mais rigor e por melhorias e aperfeiçoamentos em todos os domínios de atividades ou de decisões. Pedem por adaptação dos estilos e métodos de trabalho e de direção ao novo contexto económico, social, cultural e político, mais dinâmico e mais exigente.
A satisfação da maior dinâmica e da expansão do desenvolvimento socioeconómico está reclamando claramente uma melhor integração territorial e social, assegurada por transportes regulares e por ligações inter-ilhas eficientes, bem como, a unificação inclusiva do tecido económico e social nacional. Por sua vez, a maior complexidade e a intensificação dos processos de desenvolvimento requerem a capacitação individual e coletiva e o domínio de novas ferramentas teóricas e funcionais, associados, à reforma e à adequação do sistema de Educação, de Formação e Capacitação dos recursos humanos, a todos os níveis e especializações, a fim de poderem responder, satisfatoriamente, às exigências dos novos projetos, objetivos e desafios do desenvolvimento.
Além do mais, é indispensável e urgente melhorar e sanar o ambiente político e social, reduzindo o grau de conflituosidade social e político-partidária, aumentando o diálogo entre os sujeitos políticos e sociais e buscando o consenso e a cooperação em questões mais complexas e estratégicas, a bem do bom funcionamento institucional e público e do progresso nacional sustentável, no geral.
Neste percurso, têm-se manifestado, ultimamente, sinais de erosão da confiança no futuro nacional. O facto, por si, não é insignificante! Pelo contrário, merece a atenção das lideranças nacionais porque não deve prosseguir distraidamente e fazer escola. As suas causas e motivações devem ser conhecidas e trabalhadas no sentido de as superar e de se construir o seu antídoto. Impõe-se, assim, vencer os fatores geradores do desânimo e reforçar os fatores geradores da confiança, tais como, a política da verdade, da lealdade, da sinceridade, o exemplo de empenhamento e os resultados favoráveis de gestão.
No entanto, a complexificação normal do processo de desenvolvimento e das estruturas sociais, as dificuldades e os erros da gestão política e económica não devem transformar-se em fatores de erosão da confiança, até, porque estamos convencidos de que temos capacidades para fazer mais e melhor. Ao contrário, o reforço da confiança da Nação nas suas capacidades e no seu futuro deve ser uma prioridade estratégica da política nacional, visto que é um dos recursos imateriais fundamentais para o desenvolvimento e a afirmação nacional. Além do mais, é um verdadeiro fator de asseguração da soberania nacional.
Ao avaliar e perspetivar o futuro do nosso País, devemos ter sempre em mente que vivemos num mundo heterogéneo e turbulento, porém, bastante interdependente, em que todos os Estados ou outros atores sociais e políticos se encontram, de uma forma ou de outra, em relação uns com os outros. Os acontecimentos e as crises, por maior ou menor ou por mais longínquos que sejam, têm impacto por todo lado, em todos os países ou sociedades humanas, logo, também, no nosso pequeno país.
Acontece que a atual conjuntura mundial, complexa, geradora e portadora de conflitos, de insegurança e de disputas de variada natureza e intensidade não é a melhor nem a mais conveniente à defesa e proteção dos interesses legítimos do nosso País. Coloca-se-nos dramaticamente a questão: o que devemos ou podemos fazer para inverter a atual tendência, quando a nossa capacidade de influenciar é quase nula?
Prevemos a necessidade de assunção corajosa de uma postura própria, autónoma e inteligente, de colaboração entre e com os Estados e instituições internacionais nas iniciativas de promoção da Cooperação Internacional ativa em prol do Diálogo construtivo e inclusivo, com todos, da Paz, para todos, da Solidariedade Humana, com os abandonados e oprimidos, e da Segurança e Proteção para todos os Estados e Comunidades Humanas, sejam grandes ou pequenos, poderosos ou fracos, ricos ou pobres, independentemente, das suas religiões ou culturas. É nesta perspetiva generosa e humanista, que alvitramos como lema para o Ano de 2026: Ano da busca e materialização da Paz duradoura, do Diálogo inclusivo, da Segurança, da Cooperação e da Solidariedade Humana!
Pedro Pires - Patrono do IPP | Praia, Dezembro de 2025
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