ROSAS NO CAMINHO: O QUE A CHINA DE HOJE NOS ENSINA – E OS DESAFIOS QUE NOS COLOCA
A primeira coisa que me surpreendeu em Pequim não foi a grandiosidade das infraestruturas, nem a densidade vertiginosa da metrópole. Foram as rosas. Plantadas ao longo das autoestradas em canteiros cuidados, repetidas por quilómetros como uma afirmação tranquila de que a estética e o cuidado com o espaço coletivo fazem parte de um projeto de civilização - e não são um luxo reservado apenas a alguns. Depois, foi o silêncio. A predominância crescente de veículos elétricos nas ruas de Pequim e Qingdao alterou algo que só se percebe vivendo na cidade: a sua acústica. Uma vida urbana que, apesar do ritmo frenético, parece respirar de outra forma.
Mas havia uma terceira surpresa, mais difícil de nomear, para a qual nem as rosas nem o relativo silêncio das ruas me tinham preparado: o calor humano. Em cada uma das muitas instituições que visitei, encontrei um sentido de propósito partilhado, uma genuína disponibilidade para cooperar e partilhar, e uma amizade que não se limita ao protocolo, mas que se traduz em colaboração concreta. Num mundo onde o cinismo se tornou a linguagem padrão de muitas elites, reencontrar o valor da amizade - não como gesto simbólico, mas como prática quotidiana de cooperação - foi marcante.
Uma Trajetória, Não um Manual - e a Humildade de Continuar
Há uma tentação intelectual perigosa quando se fala da China: reduzir a sua experiência a um modelo exportável ou, pelo contrário, descartá-la como irreplicável por razões políticas. Nenhuma das posições serve quem pensa o desenvolvimento com seriedade. A China não é um manual - é uma trajetória. E as trajetórias têm textura, contradições e tempo.
Segundo dados oficiais chineses - corroborados, no essencial da escala, pelo Banco Mundial -, entre 1978 e 2019 a China reduziu a taxa de pobreza rural de 97,5% para 0,6% - medida pela linha de pobreza nacional. Mesmo por critérios internacionais mais exigentes, a dimensão do feito não tem precedente: 770 milhões de pessoas foram retiradas de uma condição que o mundo havia julgado permanente. Setenta e cinco por cento da redução mundial da pobreza extrema nesse período aconteceu num único país. É um dado impressionante: de 1978 a 2019, 3 em cada 4 pessoas que saíram da pobreza extrema no planeta eram chinesas - um resultado inseparável, claro, do peso demográfico do país, mas que nenhuma demografia explica por si só. Os ODS foram alcançados com dez anos de antecedência. Em 2024, registaram-se 1,83 milhões de pedidos de patentes - o primeiro lugar mundial pelo 13º ano consecutivo, sustentado por um investimento em investigação e desenvolvimento que cresceu mais de cem vezes desde 1995. Hoje, a China é a segunda maior economia do mundo, o maior exportador global e responsável por cerca de 30% da produção industrial mundial; segundo o Critical Technology Tracker do Australian Strategic Policy Institute (2025), lidera a investigação de alto impacto na maioria das tecnologias críticas, da IA aos materiais avançados. A estratégia das "Seis Precisões", lançada em 2013, não erradicou a pobreza por milagre - fê-lo identificando, família a família, com dados territorializados, quem precisava de quê e onde. O que impressiona não é a escala. É a metodologia.
Parte da resposta está numa arquitetura de decisão que o exterior raramente se dá ao trabalho de perceber. O sistema chinês descreve-se a si próprio como "centralismo democrático" - e, vista de perto, a mecânica é menos vertical do que o rótulo sugere. As grandes decisões são centralizadas na execução, mas alimentadas por um fluxo contínuo de escuta na base: comités de bairro e de aldeia, congressos populares locais, ciclos de consulta que antecedem cada plano quinquenal e a prática sistemática de testar políticas em zonas-piloto antes de as escalar. A pergunta analítica que me acompanhou foi precisamente esta: como é que um sistema que tanto centraliza o poder consegue manter um fluxo de informação tão capilarizado ao nível da base? A resposta honesta exige as duas metades. Esta articulação entre a consulta de base e a decisão política canaliza necessidades e corrige erros de concepção - foi ela que permitiu identificar, "família a família", quem precisava de quê. Mas consulta não é contestação: recolhe informação sem redistribuir poder, e funciona dentro dos limites que o próprio sistema define.
Para quem estuda desenvolvimento, o interesse não está em celebrar nem em condenar o modelo - está em perceber que a eficácia na entrega depende menos do grau de centralização do que da qualidade dos circuitos de informação entre governantes e governados. E essa é uma lição transferível para qualquer sistema político, incluindo o nosso. E aqui chegamos ao paradoxo que mais me fez pensar. Apesar desta trajetória avassaladora, a China insiste - com clareza e sem complexo - em manter a sua identidade de "país em desenvolvimento". Pode discutir-se o que esta autodefinição significa nos fóruns multilaterais - e discute-se. Mas o que me interessou observar foi a sua função interna, como postura filosófica de governação: a convicção de que o deslumbramento com o que já se conquistou é o início do declínio, e que o foco permanente nas fragilidades internas que ainda persistem é o que alimenta o impulso de continuar. As desigualdades entre o litoral e o interior são estruturais. A transição demográfica coloca desafios sem precedentes. A China sabe disso - e reconhece-o. Esta honestidade sobre as próprias insuficiências não é fraqueza: é, talvez, o ensinamento mais difícil de replicar, e o mais necessário.
O Digital Como Experiência Humana
Em Qingdao, vendedores de fruta e peixe acedem ao crédito bancário através do telemóvel, com base em modelos de scoring alternativos que substituem as garantias físicas que a maioria nunca teve. Entre 2011 e 2020, 400 milhões de pessoas acederam pela primeira vez ao sistema bancário formal, impulsionadas pela massificação do acesso móvel. Hoje, 85% das transações de consumo na China realizam-se por pagamentos digitais, num volume anual de 40 biliões de dólares. O yuan digital - o e-CNY - conta já com 260 milhões de utilizadores. Nas províncias rurais, plataformas como o Mybank do Grupo Ant usam dados de satélite sobre as colheitas para conceder microcrédito a mais de 200 milhões de agricultores que, até há pouco tempo, eram invisíveis para o sistema financeiro.
Não partilho estes dados como inventário tecnológico, mas porque ilustram algo mais fundamental: o que acontece quando um Estado decide que a inclusão financeira é uma prioridade de desenvolvimento com arquitetura regulatória própria - e não apenas uma aspiração enunciada em documentos. As "zonas piloto" de Shenzhen e Xangai testaram soluções antes de as generalizar. A Lei de Proteção de Informação Pessoal de 2021 e as regras de 2022 sobre algoritmos de recomendação mostram que a regulação não veio substituir a inovação - veio enquadrá-la. Este ecossistema levanta, evidentemente, questões sérias - sobre concentração de dados, sobre os limites da vigilância, sobre o poder que a informação financeira confere a quem a detém. A regulação chinesa responde a parte delas, sobretudo no plano empresarial; menos no plano do próprio Estado. A tensão entre velocidade da mudança e proteção dos direitos permanece, por isso, real. Mas a disposição para fazer esse exercício, mesmo com as suas contradições, é reveladora.
A Solidariedade que Dignifica
Sei o que vale uma visita organizada: mostra o que escolhe mostrar, e duas semanas não fazem uma etnografia. Ainda assim, há coisas que não se encenam durante 15 dias consecutivos. Há um valor que a modernização chinesa não sacrificou no altar da eficiência, e que a minha geração tende a subavaliar por o associar a uma retórica já ouvida: a solidariedade. Em cada instituição que visitei em Pequim e Qingdao, senti-a como modo de funcionamento real - não como princípio decorativo inscrito em paredes, mas como prática quotidiana de colaboração, de partilha de conhecimento, de abertura genuína ao outro. Os investigadores falam dos seus projetos com entusiasmo coletivo. As organizações funcionam com um sentido de missão que parece resistir ao desgaste. Existe algo que, no Ocidente contemporâneo, corremos o risco de chamar de ingenuidade - e que eu prefiro chamar de necessário.
Porque a ingenuidade necessária - a capacidade de acreditar que o esforço coletivo tem sentido, que o progresso é possível e que a cooperação não é uma fraqueza - é, de facto, um motor de desenvolvimento. Os países que transformaram as suas condições de vida num único século não o fizeram apenas com tecnologia e políticas públicas. Fizeram-no porque havia suficiente coesão social para sustentar o esforço ao longo do tempo, suficiente confiança para aceitar os sacrifícios do presente em nome do futuro, e suficiente sentido de nós para que o projeto fosse sentido como comum. A China não inventou este valor - cultivou-o, protegeu-o, e continua a fazê-lo mesmo enquanto abraça a velocidade.
Cabo Verde conhece este valor pelo seu nome próprio: morabeza. Conhece-o também pela experiência histórica de uma construção nacional que ninguém acreditava ser possível. O desafio não é importar um valor que já temos - é não o deixarmos perder enquanto tentamos modernizar-nos.
Onde é que Cabo Verde Se Encontra Nesta História?
Em Abril de 2026, o Instituto Pedro Pires para a Liderança reuniu, sob a Regra de Chatham House, vozes cabo-verdianas e chinesas para definir as prioridades do próximo ciclo de cooperação bilateral. O Roteiro de Recomendações Prioritárias "Praia-Beijing" que resultou desse encontro parte de um diagnóstico sem complacências: Cabo Verde importa 80% do que consome, incluindo 45.500 toneladas de frutas e legumes por ano. O serviço da dívida absorve metade das receitas fiscais próprias. A Ajuda Pública ao Desenvolvimento registou em 2025 a maior contração anual de sempre, uma queda global de 23,1%. O enquadramento jurídico e constitucional do Estado não integrou ainda o digital como fundação: por exemplo, a Constituição não contém a palavra "internet".
Este diagnóstico não é motivo de desânimo - é ponto de partida. O Roteiro formula a complementaridade disponível com precisão: Cabo Verde oferece "software e confiança" - posição geoestratégica única no Atlântico Médio, estabilidade política, inserção simultânea na CEDEAO e na CPLP. A China oferece hardware, engenharia, tecnologia e escala. Esta complementaridade precisa, no entanto, de ser operacionalizada, através de instrumentos financeiros inovadores, fundos de garantia mistos, títulos da diáspora com garantia chinesa, blended finance que catalisem capital privado sem aprofundar a dependência do endividamento soberano.
O Desconforto de Nos Olharmos Ao Espelho
Num mundo onde as divergências ideológicas entre o Ocidente e a China ocupam as manchetes e frequentemente obscurecem uma análise serena, e o debate sobre direitos humanos é instrumentalizado como peça de xadrez geopolítico - por todas as partes -, a experiência direta obriga quem estuda o desenvolvimento a uma pergunta incómoda: como ponderar, num mesmo quadro analítico, a maior operação de redução da pobreza da história - que é, em si mesma, uma realização massiva de direitos económicos e sociais - e restrições às liberdades civis e políticas? A literatura do desenvolvimento, de Amartya Sen aos relatórios do PNUD, recusa a hierarquização fácil: os direitos não se compensam entre si; realizam-se em conjunto ou ficam incompletos. Reconhecer a magnitude do primeiro termo desta equação não exige silêncio sobre o segundo. Exige precisão sobre ambos - e menos conforto com os nossos próprios pressupostos.
Saí da China com três imagens que ficaram. As rosas nas auto-estradas - a ideia de que cuidar do espaço comum é uma escolha política, não um luxo. O paradoxo de um país que realizou o impensável e continua, com toda a serenidade, a definir-se como "em desenvolvimento" - recusando o deslumbramento como política de Estado. E o calor humano de todos os chineses com quem me cruzei - a prova viva de que o desenvolvimento não precisa aniquilar os valores que lhe dão sentido.
Mas saí também com uma convicção reforçada: que o progresso - em qualquer latitude e em qualquer sistema político - tem sempre o mesmo denominador comum. São as pessoas. A sua formação, a sua capacidade, a sua possibilidade de participar e de criar. Todos os países que conseguiram transformar as suas economias e as suas sociedades fizeram-no investindo, com persistência e com método, no seu capital humano. Não há atalho. Não há infraestrutura que substitua isso. Não há parceria que o suplante.
A eficácia material da trajetória chinesa – na geração de bem comum em escala histórica – impõe uma interrogação séria às democracias: não sobre o seu valor, mas sobre o seu desempenho. Uma democracia que se esgota no formalismo institucional ou na rotação de elites, sem traduzir em ganhos concretos na vida das pessoas os valores que a justificam – solidariedade, justiça e integridade –, fragiliza a sua própria legitimidade e abre espaço a outros modelos políticos. O desafio que a China coloca ao resto do mundo não é, portanto, o de escolher entre democracia e desenvolvimento: é o de provar que é possível ter ambos, em simultâneo e com método – exigindo de qualquer projeto político a dupla promessa de resultados tangíveis e de enraizamento em valores que façam do ser humano um agente participante, não um mero beneficiário passivo. Cabo Verde, precisamente porque construiu uma das democracias mais sólidas de África (pelo menos no plano institucional), é dos poucos países com credibilidade para levar esse desafio a sério – não abdicando do que é, mas exigindo mais de si próprio.
Para Cabo Verde, o que a China nos ensina não é um modelo para replicar; é um espelho para o qual devemos olhar com honestidade. E o que esse espelho nos devolve é uma verdade simples, mas exigente: o progresso duradouro constrói-se com método, humildade e um forte sentido de nós - algo que nenhuma tecnologia pode substituir. Temo-lo. A verdadeira questão é saber se estamos dispostos a cultivá-lo com o mesmo empenho com que alimentamos as nossas esperanças.
Djalita Fialho é PhD em Development Studies, exerce funções como Administradora Executiva do IPP desde 2014 e é consultora internacional na área do desenvolvimento. Este artigo resulta de uma visita de duas semanas a Pequim e Qingdao, no âmbito de um programa de formação a convite de instituições chinesas. As opiniões expressas são pessoais e não vinculam o IPP.
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